Quem será a próxima vítima?

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Passou relativamente despercebida em Portugal a mais recente façanha do Talibanismo Politicamente Correcto, que, para além de destruir estátuas, destitui agora o nome de alguns edifícios – falamos da recente decisão da Universidade de Edimburgo de retirar o nome do filósofo David Hume de um dos edifícios universitários da cidade escocesa.

Mesmo para quem não é particularmente seguidor do pensamento de David Hume, como é o nosso caso, reconhecerá que ele foi um dos nomes maiores da chamada Filosofia Moderna, nomeadamente na área da Epistemologia.

Prova disso é a sua obra integrar os currículos de qualquer Licenciatura de Filosofia digna desse nome – nós próprios, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, estudámos David Hume, guiados até, para nossa sorte, por um dos mais ilustres estudiosos do filósofo escocês: o saudoso Professor João Paulo Monteiro, filho do não menos ilustre Adolfo Casais Monteiro.

Que a Universidade de Edimburgo tenha aceitado retirar o nome do filósofo David Hume de um dos seus edifícios, eis o que já não espanta, mas ainda assim surpreende: sem qualquer menosprezo pelo povo escocês, pelo qual temos até uma particular simpatia, o contributo da Escócia para a Filosofia Europeia passa, ainda hoje, em significativa medida, pelo contributo de David Hume.

Os próximos passos são, infelizmente, mais do que previsíveis, nesta nova “idade das trevas”: questionar a presença da obra de David Hume nos currículos das Licenciaturas de Filosofia – pois, decerto, na “lógica” do Talibanismo Politicamente Correcto, quem não merece dar o nome a um edifício não pode também figurar em qualquer cânone académico… E, ao ter aceitado retirar o nome do filósofo David Hume de um dos seus edifícios, a Universidade de Edimburgo abriu essa porta, oportunidade que o Talibanismo Politicamente Correcto não irá, decerto, desperdiçar.

Vencida mais esta batalha, é de prever o pior: basta ao Talibanismo Politicamente Correcto atravessar o Canal da Mancha e bater à porta das restantes Universidades Europeias, a começar pelas gregas. Não aceitavam também Platão e Aristóteles – os fundadores da Filosofia – a escravatura? Inequivocamente, sim. Logo, conclusão óbvia: destruam-se as suas estátuas; retire-se o nome de ambos de qualquer edifício e, corolário lógico, retire-se a obra de ambos dos currículos das Licenciaturas de Filosofia. Silogismo mais aristotélico não há… ■

Agenda MIL – 26 de Setembro, às 16h, na Biblioteca Municipal de Setúbal: Inauguração de uma Exposição foto-biobibliográfica sobre Agostinho da Silva.