A incompetência é política

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HENRIQUE NETO

A segunda tragédia dos fogos, com mais de quarenta mortes a lamentar, alterou o foco político, não tendo já nenhuma importância a demissão da ministra da Administração Interna, porque o que está agora em causa é o primeiro-ministro e o seu Governo, além de uma certa cultura de irresponsabilidade e de fuga à realidade que, pouco a pouco, se instalou no Partido Socialista. Cultura que está na origem da impreparação e da incompetência demonstradas no combate ao fogo de Pedrógão Grande e do desleixo que se lhe seguiu, nos meses que mediaram até à nova tragédia. E ainda que isso não tenha nenhum efeito prático na sobrevivência do Governo, dados os interesses partidários em causa, o futuro para Portugal com este Governo não se apresenta risonho, pior ainda se António Costa viesse a ganhar as próximas eleições legislativas.

Eleições essas que são o objectivo principal de António Costa e do PS, diria que o único objectivo visível, o que representa um perigo, em vista dos erros cometidos e da teimosia obsessiva da sua prática política, que revelam não apenas uma megalomania perigosa, mas também uma grande insensibilidade à realidade envolvente, a qual esteve na origem do desleixo pós-Pedrogão, com problemas que António Costa pretendeu resolver através da lateralização de todas as evidências e do adiamento sucessivo das medidas necessárias e por demais evidentes. Vejamos, por isso, o que poderia e deveria ter sido feito de imediato:

► Primeiro: manter presas, mesmos que em suas casas, todas as pessoas apanhadas a atear fogos, para decifrar o seu perfil psicológico e avaliar a sua importância na origem de tantas ignições simultâneas.

► Segundo: convocar as Forças Armadas e a experiência dos seus melhores chefes militares para uma guerra que já provocara 64 mortes, com o objectivo de criar e treinar uma força de emergência capaz de intervir no combate aos fogos e, não menos importante, utilizar a disciplina e as qualidades de liderança tradicionais dos militares. Recordo que Portugal tem um conjunto de chefes militares, ao serviço ou aposentados, cuja qualidade profissional é geralmente reconhecida e que, estou certo, se disponibilizariam para o serviço público nesta emergência. Uma nota pessoal para acrescentar que no meu Livro “Uma Estratégia para Portugal” proponho algo um pouco mais elaborado e permanente, mas que vai no mesmo sentido.

► Terceiro: convocar a intervenção da Força Aérea, para através dos meios disponíveis sobrevoar os incêndios principais e comunicar aos bombeiros e à GNR a evolução das frentes de fogo, quer para o combate, quer para a evacuação das populações, quer para o fecho das estradas.

► Quarto: convocar as autarquias para que de imediato avançassem com todos os seus recursos para o terreno, afim de identificar as áreas florestais a eliminar, para evitar a progressão dos incêndios, e responsabilizando-se o Governo pelos custos envolvidos, além da autoridade necessária para intervir sempre que não fossem conhecidos os proprietários dos terrenos, ou não tomassem à sua conta a tarefa. Fazendo, se necessário, uma lei com esse objectivo.

► Quinto: para dirigir o combate aos fogos, a criação imediata de um gabinete com três pessoas qualificadas, sendo uma delas um general, com poder total de decisão e a reportar directamente ao primeiro-ministro.

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Em resumo, quem quer prevenir e resolver problemas graves assume medidas como estas, ou semelhantes, não encomenda relatórios. Esses servem para o médio e o longo prazo e para uma avaliação mais fina sobre o modelo político e económico necessários para defender e valorizar o território nacional, nomeadamente os modelos escolhidos para a agricultura e a floresta, bem como o repovoamento, sem esquecer a absoluta necessidade de um cadastro do território de elevada qualidade e tecnologicamente avançado.

Creio, todavia, que pedir tudo isto a António Costa, um político profissional treinado para ganhar eleições e não para governar, será sempre um desperdício de tempo. Foi isso que conduziu a que tivessem sido reduzidos a metade os meios disponíveis para o combate aos incêndios, apenas porque era Outubro e se esperasse o milagre de a senhora ministra e demais responsáveis políticos estarem à altura dos acontecimentos. Recordo que um desses responsáveis ordenou em Pedrógão que se acabasse com o mapa de registo temporal das ocorrências, sem que tenha sido preso de imediato. Recordo ainda que nesse mesmo dia escrevi que o mapa dos acontecimentos seria a informação necessária para ajuizar o que estava a acontecer. Santa inocência a do escriba.

O problema dos incêndios em Portugal é uma questão que nos envergonha a todos, sem excepção, cuja causa não é apenas do domínio dos serviços especializados do Estado, para ser também uma questão do modelo democrático em que escolhemos viver, que privilegia a irresponsabilidade, os interesses particulares à custa do interesse geral da colectividade, modelo que se baseia no poder total entregue aos partidos políticos, que não representam minimamente o povo que os elege, o que deu origem a uma oligarquia incompetente e irresponsável. Por isso, se quisermos combater os fogos, podemos começar por mudar as leis eleitorais.