Paulo Costa Pereira

As nuvens negras não param de se concentrar sobre o palácio de São Bento. António Costa sabe certamente que, enquanto primeiro-ministro de esquerda, é uma espécie de animal político em vias de extinção. Por toda a Europa os partidos socialistas estão a ser aniquilados um a um devido à sua brutal incompetência, e já muito poucos restam no poder. Mas Costa pensou que ainda podia fugir aos “ventos políticos do destino” que vêm de fora e que quase o liquidaram em 2015. As crises das últimas semanas e a antipatia do Presidente da República, no entanto, não lhe auguram nada de bom…

Abrir os jornais internacionais é certamente uma experiência amarga para António Costa: todos os camaradas de ideologia estão a cair que nem tordos. Nos 28 países que ainda constituem a União Europeia, apenas outros cinco são governados por partidos de centro-esquerda da mesma talha do Partido Socialista português.

Os resultados são negros: nos últimos meses, os social-democratas alemães — os mesmos que financiaram o PS durante o período do PREC — foram corridos do poder a toque de caixa. Em França, o PSF, em tempos liderado por uma figura a quem Mário Soares chamava “mon ami Mitterrand”, foi transformado numa pequena agremiação sem peso nem relevância no jogo político. Há poucas semanas, os socialistas também passaram para terceiro lugar na Áustria e, ainda pior, os checos reduziram os socialistas, que se encontravam no poder, a um humilhante sexto lugar, atrás da direita nacionalista, do centro-direita, dos comunistas e até mesmo do chamado “Partido Pirata”.

Mas não é só pela direita que os socialistas estão a ser ultrapassados: os seus “amigos” da extrema-esquerda também não se importam nada de lhes espetar a faca nas costas assim que ganham um pouco de poder à sua conta. Na Grécia, por exemplo, o centro-esquerda é um resquício do passado, completamente destruído em prol do Bloco de Esquerda local. E bem gostaria Catarina Martins de conseguir fazer o mesmo ao PS da nossa praça, ou não estivesse o BE presente em todas as “causas fracturantes”.

Em vários países do Leste Europeu, os partidos de centro-esquerda não se encontram em vias de extinção, estão mesmo extintos. O PS da Polónia não possui um único deputado em qualquer das câmaras do Parlamento.

E quem sabe se não existe o risco de Costa e associados acabarem por ser derrubados dentro do seu próprio partido? Afinal, o Partido Trabalhista do Reino Unido, o mesmo que elegeu outro “António”, o controverso Tony Blair (uma figura com bastantes similaridades com José Sócrates), foi tomado de assalto por marxistas e é hoje uma espécie de Bloco de Esquerda em ponto grande.

Contas totais: restam a Costa na Europa apenas cinco Governos compostos por amigos de ideologia, e este número tende a diminuir ainda mais, pois no próximo ciclo eleitoral é esperado que o centro-esquerda também seja ejectado do poder em Itália. A cumprir-se esse resultado, António Costa e o PS não terão companheiros de centro-esquerda a liderar nenhuma das grandes capitais da velha Europa, e a sua voz na União Europeia, controlada por forças de direita, será cada vez mais irrelevante.

Incompetência e corrupção

As razões para tamanha hecatombe são óbvias: corrupção, líderes cuja única ideologia é ser eleito, completa falta de ideias, incompetência brutal.

Em Portugal quase que o PS seguiu pelo mesmo destino que os seus amigos europeus, pois o seu mau historial apenas lhes conseguiu um vergonhoso segundo lugar nas eleições legislativas face a dois partidos que foram obrigados a colocar em prática um dos programas mais impopulares de sempre (programa esse negociado…por um executivo liderado pelo PS).

Líder de uma organização falida e sem crédito, Costa negociou um arranjinho contra-natura com a esquerda radical e ganhou uma bolha de ar com as eleições autárquicas. A memória de quem colocou Portugal na bancarrota entretanto amainou, e Costa teve fé de que iria conseguir sobreviver à tempestade que está a eliminar todos os seus amigos. Ainda havia esperança de ser a “aldeia dos gauleses” da esquerda.

Costa arrisca o abismo

Mas mesmas razões que destruíram os partidos de centro-esquerda no resto da Europa voltaram para atormentar o actual primeiro-ministro. A resposta do Governo aos incêndios foi vergonhosa, com um rasto de 100 mortos e nenhuma solução plausível à vista. Face a tamanha catástrofe humana, o primeiro-ministro foi à televisão fazer política, um episódio baixo que relembrou a muitos elementos do seu partido a distância e o elitismo que muitos líderes socialistas mostravam perante o seu povo no resto da Europa.

Em França, por exemplo, onde o Presidente Hollande se comportava como um Rei, e falava com o povo com soberba e arrogância, o PS local deixou essencialmente de existir, reduzido a ser um partido de tamanho pequeno na Assembleia Nacional, enquanto que os graúdos do centro-direita e da direita governam o país.

A escala do desastre é tal que o Presidente da República se afastou politicamente do primeiro-ministro, e lhe deixou um ultimato. Costa acabou por ceder às ordens de Marcelo Rebelo de Sousa, que claramente tinha subestimado.

Os dirigentes históricos do PS, receosos de verem o seu partido seguir pelo caminho do abismo dos restantes partidos da velha Europa, começaram a deixar recados ao actual líder. Manuel Alegre escreveu que a crise vivida em Portugal “é um símbolo triste da falência do Estado, fruto de décadas de desleixo, de incompetências, de amiguismos múltiplos, da submissão do interesse geral a interesses instalados e da capitulação perante lógicas que não são a dos fins superiores do Estado e do país”. Outra figura de relevo do PS, Francisco Assis, que rejeitou a geringonça por medo da “pasokisação” do partido (situação em que o partido de centro-esquerda acaba por ser superado pela esquerda radical) considerou a resposta aos incêndios como sendo “completamente desastrosa”.

Outros nomes que se juntam à fogueira anti-Costa incluem a deputada semi-independente Helena Roseta, o comentador e antigo dirigente do PS, Pedro Adão e Silva, e também António Galamba. Os deputados da Nação eleitos pelo PS, que devem o seu lugar ao chefe partidário e não ao voto do povo português, mantiveram-se num silêncio sepulcral.

O colapso que se segue

António Costa continua a assentar o seu mandato no bom resultado nas eleições autárquicas, bem como nos números das sondagens. Mas o PS encontra-se em queda abrupta nas intenções de voto, tendo já perdido quatro pontos percentuais em apenas dois meses, segundo os estudos da Aximage.

E as sondagens não são destino, como bem o sabe Costa, que foi a votos contando com a vitória, apenas para ver as sondagens mudarem subitamente a favor da direita nas últimas semanas. No último domingo, também as sondagens na República Checa davam o centro-direita como segunda força política do país, mas no dia do sufrágio ficaram em sexto. Na Alemanha o centro-esquerda também ficou muito abaixo das sondagens, como em França. Este facto certamente não é ignorado no Largo do Rato, que parece querer evitar eleições antecipadas, mesmo estando em boa posição nas ditas sondagens.

Os próximos meses não deverão ser simpáticos para o primeiro-ministro. Tem de responder politicamente perante uma esquerda marxista, um Presidente que não tem confiança nele, um partido que começa a ter medo das opções do seu secretário-geral e uma União Europeia controlada por forças de direita. O PSD terá em breve um novo líder da oposição e ainda existe o eterno fantasma de Costa: José Sócrates. As revelações da Operação Marquês, uma potencial caixa de pandora também são um poderoso elemento de risco para o primeiro-ministro. Não seria a primeira vez que um partido é arrasado por escândalos de corrupção: o Partido Socialista de Itália, para todos os efeitos, deixou de existir graças aos esquemas de um antigo primeiro-ministro. O mesmo PSI que tinha fortes ligações ao PS de Mário Soares.

Costa continua a fazer o seu malabarismo político, mas os ventos que vêm da Europa e de dentro de Portugal não lhe auguram absolutamente nada de bom.

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