Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes

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Francisco Assis, num momento de inspiração, lançou o nome de Ana Gomes como possível candidata à próxima eleição para a Presidência da República, ideia que foi apoiada por alguns socialistas e ex-socialistas, entre os quais me encontro. Dada a importância da proposta, penso ser útil fazer aqui neste espaço um conjunto de reflexões no sentido de tentar racionalizar as vantagens e os possíveis inconvenientes de uma tal candidatura, pensando também na necessidade de convencer Ana Gomes a prestar mais este serviço ao País.

Em primeiro lugar, parto da realidade de que ao longo das últimas duas décadas Portugal sofreu um forte atraso no seu processo de desenvolvimento em relação aos outros países europeus, que a economia portuguesa estagnou com base num modelo económico errado de duas economias divergentes e no privilégio do mercado interno, os dois elementos que mais impedem o crescimento económico e o progresso social. Com a nota de que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tal como aconteceu com o Presidente anterior, se limita a ocupar o cargo, medroso da instabilidade política e prestando-se a apoiar uma governação  baseada no ilusionismo político e nas ideologias fortemente contraditórias do PS, do PCP e do Bloco de Esquerda, que criaram uma realidade virtual de um Portugal aparentemente feliz, mas parado no tempo. 

Acresce que não é preciso ser profeta para prever o que será a próxima década com Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República e António Costa como Primeiro-Ministro. Em primeiro lugar,  teremos uma sociedade baseada no  poder crescente dos partidos políticos e do Estado; no definhamento das instituições democráticas e da actividade privada; a irrelevância do Parlamento; o privilégio do mercado interno e a continuação da economia dual que temos, que apenas permite o crescimento anémico das  exportações, que sabemos globalmente insuficientes; a subsidiação da pobreza e a dependência crescente dos portugueses em relação ao Estado; empurrar a dívida com a barriga até isso ser permitido pelos credores; investimentos públicos errados e sem retorno económico, como aconteceu no consulado de José Sócrates e agora continua com a ferrovia em bitola ibérica, o crescimento errado do Metro de Lisboa e o  porto fantasma do Barreiro.

A estas políticas do conformismo e da corrupção, preside um Presidente da República conformado, que faz tudo o que pode para não ver os erros da governação e que trata  em surdina algumas  das suas poucas discordâncias, como se o Partido Socialista tivesse alguma motivação para mudar de vida. Marcelo Rebelo de Sousa limita-se a estar contente com a manutenção da sua invejável popularidade, a visitar os pobres e os excluídos, que assim continuarão pobres e não menos excluídos. Aparentemente, este Presidente não sabe que não existe progresso social sustentável sem eficiência económica. Mas, como sabemos, a coragem não é um dos pontos fortes do Presidente da República que, estou certo, se o deixarem, cumprirá com mérito a sua vocação de promover a felicidade universal.

Ao contrário, a coragem é a principal mais valia de Ana Gomes, alguém que não engana quanto à sua determinação em combater a corrupção e a promiscuidade da política com os negócios, uma real defensora do progresso nacional e da democraticidade do regime, ao serviço dos mais pobres certamente, mas sem a hipocrisia dominante, em que são os privilegiados da política os que mais enriquecem. Alguém que não tem medo de falar verdade e de afrontar os poderes tradicionais existentes na política portuguesa e que, estou certo, pugnará pela democratização do regime, factor que representa uma enorme fragilidade da gestão de Marcelo Rebelo de Sousa. A afirmação repetida da falta de poderes da Presidência, não resolve nenhum dos problemas do País e, a ser assim, para que servirá então a popularidade?

Infelizmente, não abundam em Portugal personalidades que ao longo dos anos tenham criado um currículo de combate aos erros e aos desvios democráticos da governação, sem complexos partidários, como Ana Gomes tem feito. Ao contrário, abundam os candidatos das hierarquias do regime que se mantêm calados e a beneficiar da boa vontade dos governos, acordando apenas para a vida nos períodos eleitorais. Estou certo de que alguns surgirão também nas próximas eleições, para afirmarem muito daquilo que nunca teriam coragem para realizar, amigos iguais da estabilidade e defensores de que mude alguma pouca coisa para que tudo possa continuar na mesma. Não será esse o caso de Ana Gomes, e essas são as razões porque apoiarei a sua candidatura, caso esta se venha a materializar. Em qualquer caso, não votarei em Marcelo de Sousa, nem num outro qualquer candidato faz-de-conta que possa vir a ser escolhido por António Costa. 

Claro que haverá muitos magos da política portuguesa, com poucas ideais e menos coragem, que afirmarão que não é possível ganhar a Marcelo Rebelo de Sousa, cuja aparente finalidade é a de ter mais votos do que Mário Soares. Em eleições, sabemos, ganha-se e perde-se, mas existe também a consciência do dever cumprido em relação a Portugal e aos portugueses. Tudo depende deles, os portugueses, não dos muitos profetas dos interesses dominantes e da tão falada estabilidade dos cemitérios.

Na possível candidatura de Ana Gomes vejo apenas um perigo: o de António Costa apoiar a candidatura; não é o mais provável, mas não é impossível. Existe sempre a possibilidade do PS voltar a fazer o mesmo que fez a Mário Soares: apoiar uma qualquer candidatura que disfarce a vontade de ter Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, mas sem verdadeiramente se empenhar na campanha.  

Quanto ao resto, a minha convicção é de que são tantos os erros e os interesses particulares defendidos pelo Partido Socialista e pelos governos socialistas dos últimos vinte anos, como agora com a geringonça na construção de uma realidade feita de contradições ruinosas – União Europeia; modelo económico; o papel do Estado e da actividade privada; a dívida pública; o investimento público e os serviços públicos; a corrupção – que não será demasiado difícil demonstrar aos portugueses que a mudança é a única via para o progresso de Portugal no contexto europeu e mundial. Bem como mostrar as verdadeiras causas de nos estarmos a atrasar em relação aos restantes países europeus, bem como a falácia do crescimento económico acima da média da União Europeia. 

A candidatura de Ana Gomes é uma oportunidade que acredito pode ser ganha, sem deixar de ser uma oportunidade que, por mil razões, poderá ser perdida; basta que os portugueses não queiram a mudança. O que não altera a necessidade da candidatura de Ana Gomes, mas seria pena a derrota, nomeadamente porque já levamos muitos anos de oportunidades perdidas e já teremos aprendido à nossa custa a não acreditar nos amanhãs que cantam. Basta para isso que vejam o que está a ser feito por outros países, por exemplo a Irlanda, e comparar o ordenado médio na Irlanda, que é de  2.479 euros, e o de Portugal, de 925 euros, para compreendermos que estamos a ser mal governados e que as nossas oportunidades para a mudança não são muitas, na medida em que os partidos políticos conquistaram para si todos os instrumentos do poder. 

Tal como quando tinha dezasseis anos, continuo a acreditar nas virtualidades da democracia, mas sei hoje que a democracia adulta e moderna com que sonho nunca será construída por falsos democratas, cuja finalidade maior é a manutenção do poder e a possibilidade de utilizar os recursos do Estado em benefício próprio. ■