O Conflito do Médio Oriente

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Dedico esta crónica a um tema internacional, o que faço raramente, dada a sua importância para a Europa e para o Mundo. Trata-se da questão do Médio Oriente e da decisão do Presidente norte-americano de atacar e matar o general iraniano Qassem Soleimani. Faço-o por considerar que a generalidade dos comentadores dos jornais e televisões, quanto à possibilidade de uma guerra aberta entre os dois países, estão errados, porque a guerra não vai acontecer.

No dia onze de Novembro de 2001 estava a almoçar em São Pedro de Moel quando o dono do restaurante me veio dizer que um avião tinha embatido contra as torres gémeas de Nova Iorque. Não dei muita atenção, já tinha acontecido antes no Empire State; mas quando me veio dizer que havia um segundo avião com o mesmo destino, fui de imediato à televisão ver o que se passava e tive a noção de que se tratava de um acontecimento histórico. Fui para o escritório e escrevi o texto que aqui reproduzo e que foi publicado dois dias depois no jornal ‘Notícias de Leiria’. Uso este texto para procurar demonstrar que os iranianos usarão a guerra por outros meios, como previ há quase vinte anos.

“Parar Para Pensar”
“Escrevo estas linhas a quente, cerca de uma hora depois de todos os noticiários mundiais estarem concentrados num único tema: o ataque terrorista ao poder e ao prestígio dos Estados Unidos, com dois aviões, ao que tudo indica comerciais, a explodirem contra do ‘World Trade Center’ em New York. Trata-se de um acontecimento criminoso e trágico, que certamente provocou e provocará muitas vítimas inocentes, mas é também um acontecimento previsível e histórico, que não deve ser tratado de forma simplista

‘Acontecimento previsível porque existe hoje uma situação única na história dos povos, em que uma nação, os Estados Unidos, detém um poder cultural, económico e militar sem precedentes, de tal forma superior a qualquer outra nação ou conjunto de nações que, para o bem e para o mal, representa uma alteração profunda das relações tradicionais de poder no mundo, que tende a inviabilizar a resolução dos conflitos religiosos, nacionais e económicos da forma como sempre foram resolvidos no passado: através da guerra ou do diálogo. Isto é, ainda que a generalidade das pessoas do nosso planeta, como eu próprio,  seja a favor da paz e do diálogo e abomine as guerras, até pela capacidade de destruição que as modernas tecnologias permitem, o facto é que o avanço tecnológico em que se baseia o poderio americano não alterou as causas tradicionais dos conflitos e, assim sendo, os interesses e os ódios que sempre conduziram às guerras começam a encontrar novas formas de se expressarem, no terrorismo.

‘Trata-se também de um acontecimento histórico, cuja dimensão aumenta à medida que passam os minutos desta informação global em que vivemos, o que vai implicar uma mudança de paradigma sobre o conceito de guerra e abre uma nova fase na capacidade de acção e de organização de terrorismo internacional, representando uma “vitória”, ainda que temporária e trágica, para os extremistas de todo o mundo. Vitória que, projectada pelos meios de comunicação, representa uma capacidade acrescida de recrutamento sobre os milhões de seres humanos que vivem na mais extrema miséria e na mais absoluta ignorância, seres humanos que são também povos e culturas sem alternativas dignificantes, que a nossa civilização abandonou à sua sorte e se recusa a tentar compreender.

‘Os Estados Unidos, ou a civilização ocidental, reagirão certamente em força, castigando os culpados pela barbaridade dos actos cometidos, talvez cerquem e ataquem o Afeganistão ou qualquer outro local onde pensem encontrar os criminosos, mas melhor será que nos interroguemos sobre as causas de tudo isto e se abram novas perspectivas de desenvolvimento equilibrado e justo em todo o planeta, nomeadamente através de um diálogo genuíno e não da habitual imposição dos nossos interesses e dos nossos valores a outros povos, civilizações e culturas.

‘Em muitas partes do mundo os ricos e os poderosos já vivem cercados por altos muros e por arame farpado; agora, com o que aconteceu hoje, poderemos facilmente ceder à tentação de criar Estados policiais contra a imigração, a miséria e o terrorismo. Suponho todavia que essa não será a via correcta e talvez seja a última oportunidade que teremos de parar para pensar, porque é certamente mais útil para a nossa civilização concluir que algo deve ser feito no sentido de criar novas condições de progresso e de desenvolvimento para todos os povos, bem como reconhecer e promover o respeito  e a dignidade de todos os seres humanos.”

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Estúpido e trágico
Infelizmente,  não se parou para pensar, nem se atendeu à ideia proposta pouco tempo antes no XII Congresso do PS, de uma taxa sobre todas as transacções comerciais realizadas nos países desenvolvidos para financiar as Nações Unidas a promover a saúde e a educação nos países mais pobres do planeta, evitando a nova tragédia sem solução da imigração desses povos. Infelizmente, foi criada a inútil guerra do Iraque e estamos a deixar destruir a nossa civilização através da permissividade das migrações, nomeadamente em relação ao islamismo. 

Não haverá guerra entre os Estados Unidos e o Irão, apesar da actual irracionalidade das políticas norte americanas, sendo que a guerra continuará por outros meios, através do terrorismo internacional. Sendo trágico que a Europa, berço da civilização ocidental, não veja o óbvio: que o crescimento das migrações em direcção aos países europeus destruirá a nossa civilização sem resolver nenhum dos problemas dos mais pobres e ignorantes do nosso planeta.

A ideia, tão presente no nosso País, de que o Estado pode sustentar todos os pobres através de subsídios, ou da aceitação de cada vez mais imigrantes, criando mais corrupção e maior dependência, em vez de dar aos portugueses e aos povos pobres do mundo o direito à educação e a saúde, para serem cidadãos úteis e capazes de criar as sua próprias soluções nas suas terras de origem, é uma ideia que tem tanto de estúpido como de trágico. ■