Para onde vai Portugal?

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A vida política, económica e social portuguesa está mergulhada na maior confusão, com problemas a surgirem de todos os lados e sem que o Governo, mas também as oposições, tenham uma visão coerente sobre o que fazer. Pior do que isso, as medidas que vão sendo adoptadas são contraditórias, incoerentes e não poucas vezes inúteis. Pelo meio somos enganados com análises falsas das situações, frequentemente mentirosas, destinadas a iludir e a obscurecer a realidade.

A comunicação social salta de tema em tema, da pandemia para a violência doméstica, da criminalidade para a inflação, dos custos da energia para as falhas da Justiça, dos casos de pobreza extrema para o crescimento da mortalidade e para as falhas do Serviço Nacional de Saúde, dos problemas ambientais para a inutilidade de muitos investimentos. Tudo sem uma visão clara do que fazer e sem uma qualquer hierarquia das prioridades. Portugal vive uma patética falta de direcção, uma autêntica manta de retalhos governativa.

Esta semana foi a morte de uma criança de três anos em Setúbal, devido a maus tratos familiares e a abusos sexuais, que causou uma indignação generalizada e mostrou uma multiplicidade de serviços do Estado e da sociedade numa azáfama de explicações para o sucedido. Explicações para todos os gostos e destinadas à defesa de cada coutada e não para debater, uma vez por todas, o que fazer e as causas para a ausência de uma estratégia nacional para a superação do buraco em que vivemos.

Um exemplo: neste caso da morte da criança em Setúbal toda a gente tentou explicar as razões porque tendo sido detectada a situação familiar da criança no primeiro mês de vida, todas as muitas instituições existentes falharam em detectar o perigo e em encontrar a solução. Espantosamente, ninguém se surpreendeu que a criança nunca tenha frequentado uma creche. Espantosamente, não ouvi falar do principal método de detecção e de prevenção de maus tratos das crianças que reside sua escolarização, com alimentação e transporte, desde os primeiros meses de vida, como ando a pregar há trinta anos. E qual o maior crime, não detectar uma criança em perigo pelos inúmeros serviços do Estado, ou o crime do Estado em não garantir que todas as crianças, desde que nascem, frequentam disciplinadamente as creches e o pré-escolar?

Aparentemente, ninguém olhou para uma solução integrada, global, válida para todos, em vez de mil pretensas soluções contraditórias consumidoras dos recursos nacionais, ou seja, falhou neste caso, como em quase tudo o resto, aquilo que se resume a uma única ideia: estratégia e método para a executar.

Por estratégia e método quero dizer definir os mais graves problemas do país e a solução adequada, sendo que, a meu ver, o maior problema à procura de solução reside na ignorância que origina a pobreza e a miséria humana de uma parte relevante da nossa população e a solução reside na educação, principalmente nos primeiros anos de vida das crianças. Repito, com alimentação e transporte. A miséria humana que vai dos abusos sexuais aos maus tratos de milhares de crianças, até à miséria das claques de futebol, da criminalidade perigosa à ganância de empresas, da inoperância de organizações até à corrupção. Ou seja, a solução central para os nossos problemas reside na simples melhoria da qualidade dos portugueses e isso só se consegue nos primeiros anos de vida das crianças.

A educação é a solução, mas não uma educação qualquer. Trata-se de fornecer às nossas crianças e jovens conhecimentos, sem dúvida, mas não iremos longe se a formação das crianças não comportar, com igual relevância, a formação dos comportamentos e a aquisição das competências. Cumprir disciplinadamente os horários pode ser tão importante como saber nadar e ambos como ter conhecimentos de geografia. Trata-se de uma revolução no conceito de educação, mas uma revolução necessária para superar a miséria em que vive uma boa metade da sociedade portuguesa.

Na procura de soluções para os nossos problemas precisamos de método. Temos de aprender a procurar as causas das outras causas que estão na origem dos nossos problemas e parar de encontrar 100 soluções para cada problema, de criar novas instituições, comissões, gabinetes e barómetros para nos concentrarmos no que pode melhorar a nossa qualidade como seres humanos e a nossa capacidade individual para viver de forma positiva em sociedade.

Depois chegam as outras questões, a democracia versus a autocracia, a solidariedade versus a exploração, o primado da lei e da ordem versus a anarquia, a vida versus a
doença e a morte. Tudo com base na ideia de que é na qualidade individual de cada ser humano que se pode construir a diferença.

Ao ver as imagens do ataque ao Capitólio, sede da democracia americana, como nos clãs do nosso futebol, vejo muitos licenciados e porventura até doutores, para concluir que o modelo educativo concentrado apenas nos conhecimentos é hoje obsoleto. Fornecer competências e comportamentos positivos às nossas crianças, acredito, fará toda a diferença no nosso futuro. Ou seja, generalizar a todos os seres humanos o que ao longo dos séculos foi a tarefa de muitas boas famílias, com a ideia que talvez um dia possamos voltar a usar o método da formação no seio da família.

Os governos portugueses mostram uma preocupante ausência de estratégia e de método. É todos ao monte e fé em Deus. Existem dezenas de instituições e leis para cuidar da pobreza, outras tantas da saúde, muitas ainda para a educação, muitas mais para garantir a justiça. Todavia os maiores criminosos andam à solta, os hospitais são muros de lamentação anarquizados, metade dos portugueses são perigosamente ignorantes e a fome é uma realidade em Portugal. Há coisas bem feitas, com certeza, há portugueses que se sacrificam pelo bem público, sem dúvida, mas, apesar disso, Portugal é hoje um país atrasado, com níveis de pobreza e de ignorância elevados e estamos a ficar para trás em todos os índices económicos e sociais. Outros países, como a Suíça ou a Irlanda, a Dinamarca ou a Finlândia, são uma miragem para os portugueses.

O que se passa connosco? Porque misturamos tudo? A verdade e a mentira são uma e a mesma coisa? O trabalho e a preguiça são unidades do mesmo valor? A sabedoria e a esperteza são igualmente respeitáveis? A honorabilidade e a corrupção são marcas do mesmo fadário? Para onde vai Portugal? ■