Presidente da República e Governo não atinam

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O Presidente da República, António Costa e o seu Governo não são bons exemplos de disciplina e de organização e, assim sendo, não surpreende que estejam surpreendidos com a evolução do Covid-19 na região de Lisboa. Depois da promoção, nacional e internacional, da falsa ideia de que Portugal era um oásis de saúde pública, vivem agora a desorganização, mais ou menos anárquica, que é a realidade da governação entre nós.

A propaganda sobre a disciplina dos portugueses durante o confinamento deu lugar à realidade de que o medo e o desejo de umas férias parcialmente pagas sem trabalhar, fossem afinal apenas uma compreensível oportunidade para muitos portugueses.

A excelência do Serviço Nacional de Saúde, que conduziu à exclusão ideológica dos privados, é tão só uma política de autopromoção, que transformou dirigentes políticos em especialistas de pandemias, a ocupar o dia inteiro nas televisões.

Não podia ser diferente, nomeadamente em centros urbanos com lares de idosos amontoados em espaços reduzidos, com locais de trabalho sem a disciplina necessária, muita pobreza e alguma sujidade à mistura. Acresce que, desde sempre, o Partido Socialista é o partido do improviso, mestre da palavra fácil e da realidade virtual, sem nenhum sentido de responsabilidade e de ética profissional. Sob o domínio da advocacia e das chamadas ciências sociais, onde os empresários são raros e os gestores são públicos, os modelos de organização são desconhecidos. Recordo, a seguir ao 25 de Abril, o orgulho com que o PS apresentava o Chico da CUF, que era o seu militante ligado à realidade da vida do trabalho.

Durante algumas semanas, o discurso do Presidente da República e do Governo não jogaram certo com a realidade do País. No fim, o tempo acabou por mostrar o país real, com enormes faixas de ignorância, pobreza e parado no tempo, além de um Governo enorme, constituído por aprendizes de feiticeiro. A cena do Primeiro-Ministro a chamar mentirosa à Ministra da Saúde era previsível, a impreparação conduz sempre à confusão e ao desespero. A grande família socialista caiu na real, ainda que nunca o venha a admitir. 

Economia

Com um Governo com estas características e com uma situação económica nunca antes vista e sem precedentes para copiar, o Presidente da República, o Governo e o PS, em vez de reunirem os empresários portugueses para o combate, fazem planos enormes, burocráticos e inúteis e ajoelham em Bruxelas implorantes da salvação. Ainda não contentes, a salivar pelo dinheiro europeu, desenham projectos mirabolantes, investimentos colossais e já vêem AutoEuropas em cada esquina. O lunático Ministério do Ambiente manda às urtigas a economia.

Sendo nós o país da Senhora de Fátima, não surpreende que seja chamado um salvador messiânico, sósia do Primeiro-Ministro, com quem se vai certamente incompatibilizar. Está escrito nas estrelas, a menos que saia de cena tão rapidamente como entrou. Apesar disso, confesso a minha curiosidade para que chegue o dia 15 de Julho, com ou sem atrasos, para poder conhecer mais um exercício de salvação da Pátria. A minha única dúvida é sobre o número de páginas, dado que na cultura política portuguesa o número de páginas é inversamente proporcional à valia do texto. A comparação dos recentes pactos de estabilidade de Portugal e da Alemanha demonstram-no: cinquenta e quatro páginas para Portugal, uma página para a Alemanha.

Deixo um conselho: neste tempo de uma crise sem tradição e que não deixa tempo para divagações, sugiro corram a ler Michael Porter, a fim de concentrar esforços no que sabemos fazer bem, dar prioridade às exportações e aos investimentos bem pensados, que sejam rapidamente rentáveis, como a ferrovia em bitola UIC em direcção ao centro da Europa, como aconselhado pela Comissão Europeia. Atenção que não se trata de TGV, ou de substituir todo o nosso sistema ferroviário, mas apenas uma única ligação que evite que as nossas exportações passem a depender do vizinho espanhol e possamos beneficiar da liberalização do mercado ferroviário na Europa, da concorrência e de melhores preços.

Recentemente, o Primeiro-Ministro, numa entrevista a um jornal espanhol, disse o contrário do que aqui proponho. De forma marcadamente ignorante, afirmou que a prioridade portuguesa é a ligação à Galiza, à Andaluzia e para a Europa. Escondeu assim que chegaremos à fronteira em bitola ibérica e a partir daí serão os espanhóis a tomar conta de 75% do nosso mercado externo. Espanhóis que, recordo, estão a electrificar a linha existente em bitola ibérica entre a fronteira portuguesa e Salamanca, contrariamente ao acordado com Durão Barroso na Figueira da Foz.  Afinal, os espanhóis sabem bem o que o Governo português ignora: que as exportações portuguesas são produzidas principalmente a Norte do Tejo, enquanto António Costa, perante o silêncio do Presidente da República, anda a investir a Sul numa via única de bitola ibérica. 

Tudo o que fica dito bastaria para destruir como mentiroso o Primeiro-Ministro António Costa, se num debate aberto em qualquer canal de televisão. Ele sabe disso, o ministro Pedro Nuno Santos sabe disso, mas, por isso mesmo, tudo fazem para evitar esse debate público. Deixo aqui, em desespero de causa e em nome do interesse nacional, o desafio: tenham coragem, o Portugal do futuro agradece.  

TAP

O acordo feito pelo Governo com os sócios privados da TAP, cautelosamente mantido tão secreto quanto possível, é reconhecidamente uma obra do PS e do amigo Lacerda de António Costa. Apesar de desaparecido, deixou aos portugueses a factura por pagar e o poder de decisão aos privados da TAP. Se tudo corresse bem, o Estado fazia de conta que mandava na empresa, mostraria aos papalvos a beleza dos novos aviões, a abundância de turistas e um negócio em crescimento. Mas, como o Governo conhece mal a diferença entre lucros, cash-flow e prejuízos, o ministro limitar-se-ia a dizer coisas sobre prémios. Ou seja, os privados mandavam na empresa e o lírico ministro Pedro Nuno Santos ficava a gesticular sozinho. Tudo bem, portanto.

Infelizmente, a pandemia chegou e estragou os planos a toda a gente. Os privados tiveram de pedir ajuda baseados nos previsíveis apoios europeus a contas com a pandemia e o ministro Pedro Santos viu ali a sua oportunidade de apanhar a onda, em parceria com o PCP e o Bloco de Esquerda, para nacionalizar a empresa e aproximar-se do cargo de Secretário-Geral do PS. O problema é haver ainda muita gente que se recorda que a TAP, dirigida pelo Estado, sempre apresentou prejuízos e que o ex-ministro Jorge Coelho a quis vender sem sucesso. Para que conste, parece que deu lucro durante um ano.

Em resumo, para além de ser bastante divertido ouvir Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa a falarem constantemente nas televisões sobre pandemias, a dura verdade é que não fazem nenhuma ideia de como retirar o País do atoleiro em que, com a ajuda do Covid-19, o meteram. ■