O País está contente e o crescimento da economia no último trimestre colocou o Governo, os partidos da maioria e alguns comentadores mais distraídos em plena euforia. Não surpreende que o tema do investimento público volte em força e alguns sectores da economia, como os gabinetes de engenharia e as empresas de construção, já estejam a salivar por mais obras. A probabilidade é, portanto, que a história se repita e que se inicie um novo ciclo de obras públicas, com os diversos ‘lobbies’ a lutar por um lugar ao sol depois de alguns anos de jejum, e após o fartote de José Sócrates.

Como aconteceu no passado, é previsível que cada grupo de interesses favoreça umas obras relativamente a outras e portanto, tal como no passado, o que resultará desta nova fase não terá muito a ver com aquilo de que o País realmente precisa, mas aquilo que seja mais favorável aos interesses instituídos e, no caso, o PS tem mais para oferecer, até porque é o PS que tem a chave do cofre.

Num país bem dirigido e com uma classe política decente, os quatro anos anteriores de pousio no investimento público teriam servido para um debate sério entre técnicos e políticos sobre as obras essenciais ao País, idealmente com base numa definição estratégica para os próximos vinte anos, a fim de os novos investimentos servirem um determinado objectivo económico debatido e consensualizado. Caso em que, se o consenso não fosse possível, os portugueses saberiam, pelo menos, quais as alternativas em presença. Ora não tendo sido isso que aconteceu, não será ofensa dizer que teremos em breve a lotaria dos interesses a ditar como iremos gastar o dinheiro, ou, se preferirem, como irão acumular mais dívida.

O Primeiro-Ministro António Costa anunciou há tempo que as grandes obras públicas teriam no futuro de ser aprovadas no Parlamento. Tal feito de competente propaganda política não vai alterar grande coisa a realidade; pelo contrário, a probabilidade é que a aprovação dependa, quando muito, de uma melhor repartição dos frutos mais desejados pelos vários lobbies em presença. Por exemplo, o porto do Barreiro e a chamada modernização da linha férrea da Beira já terão a sua aprovação garantida, apesar de ser óbvia a sua inutilidade.

Agora, para que conste e fique para a história, defendo para o País uma estratégia euro-atlântica, como se depreende do cabeçalho desta coluna, e, de acordo com essa estratégia, a prioridade nos futuros investimentos deveria ser a do desenvolvimento de uma logística que permitisse atrair para Portugal o investimento estrangeiro de empresas industriais integradoras e melhorar a posição competitiva das exportações nacionais. Assim:

  • A primeira e a principal prioridade seria o reforço da capacidade de atrair mais navios para realizarem o ‘transhipment’ em Sines e ganhar esse mercado aos outros portos europeus, em particular Algeciras e Tânger-Med, beneficiando a economia portuguesa e o investimento estrangeiro da paragem frequente de mais navios e a mais baixo custo, algo que a pequena dimensão da economia portuguesa, por si, não permitiria. Para isso, investir na construção do terminal Vasco da Gama completamente automatizado, a exemplo da recente inovação chegada da China, porventura em parceria com uma nova entidade internacional.
  • A segunda prioridade seria uma nova linha férrea em bitola europeia, do eixo Aveiro/Leixões à fronteira, com dois objectivos: fazer chegar os comboios (nacionais ou estrangeiros, públicos ou privados) directamente de Portugal ao centro da Europa e não fazer depender o comércio externo de Portugal das plataformas logísticas espanholas.
  • A terceira prioridade seria uma nova linha em bitola europeia entre Sines e Vigo, com a ligação a Vigo a ser negociada com a Espanha, sendo que todas estas linhas seriam em via dupla e, simultaneamente, de mercadorias e de passageiros.

Pessoalmente, por razões estratégicas, não privilegiaria, nesta fase, uma nova ligação de Sines a Badajoz. Razão: tal como os nossos antepassados, não favoreço a criação de um único centro político e económico ibérico em Madrid, do tipo Napoleónico, o que também não é favorecido pelas regiões de Espanha, mas aceito o debate sobre o assunto.

Claro que tudo isto mereceria um estudo aprofundado, envolvendo os vários sectores da sociedade portuguesa e a elaboração de projecções independentes, nomeadamente alternativas, na expectativa de que apenas o interesse nacional pudesse estar no pensamento dos dirigentes políticos. Infelizmente, é, porventura, pedir demais.

Nota: os investimentos propostos deveriam dar lugar a uma negociação  na União Europeia para o seu financiamento em 85%, como alternativa, ou em complemento, da previsível negociação sobre a dívida. Além de máxima prioridade a dar à elaboração dos respectivos projectos de engenharia.

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