Logística: os erros dos governos

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Não refiro os erros da política logística portuguesa porque não existe qualquer política neste domínio. Nos últimos seis anos existiram tão só dois ministros profundamente ignorantes das necessidades da economia portuguesa e, pior, incapazes de compreender o funcionamento de uma economia de mercado e sonhando, em parceria com o PCP e o Bloco de Esquerda, que Portugal possa fugir da concorrência internacional. Ou seja, neste processo estão a condenar Portugal e a economia portuguesa a seguirem na traseira do comboio da União Europeia.

Porventura pior, por ausência de preparação técnica ou por uma irresistível vocação para a mentira e para a fuga às responsabilidades, não respondem às dúvidas dos empresários e dos especialistas sobre, por exemplo, o futuro da ferrovia, do transporte aéreo e dos aeroportos, da TAP e da necessária ligação dos portos e das empresas exportadoras à Europa. De facto, escondem-se incapazes de enfrentar as dúvidas e as críticas dos agentes económicos e até hoje têm-se limitado a fazer promessas que não cumprem. Mas vamos por partes:

1.Ferrovia
O ministro Pedro Nuno Santos tem afirmado vezes sem conta, não ser a bitola ibérica um problema para a ligação dos comboios portugueses, ou europeus, entre Portugal e o centro da Europa, recusando-se a revelar como essa ligação pode ser levada a cabo. Nega-se igualmente a explicar a razão dos espanhóis já terem gasto, com o apoio da União Europeia, dezenas de milhares de milhões de euros em novos investimentos para a ligação ferroviária a França a fim de servir as empresas e os seus portos com novas linhas de bitola UIC. Será por estupidez dos governos espanhóis? Será por desconhecimento do segredo português? Se o ministro sabe a resposta não a dá, sendo que também não esclarece o que pretende fazer para cumprir as directivas europeias de liberalização do mercado ferroviário e permitir que as empresas ferroviárias europeias possam concorrer no mercado português, certamente com melhores preços, como já acontece em Espanha. Sendo que não é previsível que essas empresas invistam em material circulante que não existe disponível em lado algum na Europa e apenas para servir um pequeno mercado como o nosso, seja para passageiros, seja para mercadorias. Não explica também o ministro como pensa evitar a perda de competitividade do transporte rodoviário de mercadorias de longo curso, por força das regras ambientais mais exigentes da União Europeia, do custo das taxas a aplicar para o atravessamento dos países, o crescente custo do combustível e os custos ambientais daí resultantes, sendo que as regras europeias não vão perdoar. O ministro não explica ainda como pretende que Portugal participe no novo modelo de transporte de mercadorias por camião colocado em plataformas ferroviárias, o que será certamente o futuro do transporte de mercadorias para grandes distâncias, mais económico, mais amigo do ambiente e até mais rápido do que o transporte rodoviário, além de não depender de energias fósseis importadas. Finalmente, não explica a razão de já não haver ligação ferroviária entre Lisboa e Madrid.

2.Transporte aéreo e TAP
O ministro Nuno Santos ainda não explicou como é que a TAP pode sobreviver operando apenas no aeroporto de Lisboa e apenas com base no longo curso, como não explicou como pretende manter os “slots” necessários para as companhias estrangeiras garantirem as ligações para o Porto, Faro, Madeira, Açores e, já agora, de e para a Europa. Não explicou ainda como pretende manter a empresa “Ground Force” a operar apenas com uma TAP de dimensão reduzida e em conflito com o Governo. Não explica também a razão de não ser prolongada a pista secundária de acesso dos aviões à pista principal, com o objectivo de permitir aumentar o número dos movimentos por hora no aeroporto. Finalmente, o ministro não explicou ainda a vantagem de manter uma guerra aberta com o maior operador que serve o mercado português, nomeadamente com turistas europeus.

3.Novo aeroporto
Neste caso não é apenas o ministro, mas também o Primeiro Ministro que faria bem em explicar o romance da localização do novo aeroporto, se vai ou não ser construído, onde e quando. Seria também bom que, entretanto, o Governo compreendesse que uma qualquer solução inteligente depende totalmente da definição prévia de qual o futuro do aeroporto Humberto Delgado. Quantos anos vai ainda ficar operacional? Com que capacidade em função da dimensão futura do mercado? Quais as limitações futuras para a sua operacionalidade no meio da cidade, limitações ambientais, de segurança, ou económicas? Como é evidente, este primeiro passo permitirá definir racionalmente se precisamos de um aeroporto complementar ao existente, ou de um aeroporto que vá no futuro substituir o que existe. Tudo dependerá das respostas a estas perguntas e não estudar previamente esta questão está na raiz da enorme confusão e da incompetência governamental na origem do debate meio louco sobre o novo aeroporto.

4.Portos
O ministro Pedro Nuno Santos ainda não explicou a razão de andar a arrastar os pés para o crescimento do Porto de Sines e as razões de o porto de Sines já ter sido ultrapassado em movimento pelo mais recente porto de Tânger Med. Ou qual a razão de arrastar os pés na construção do Terminal Vasco da Gama. Ou a razão de não haver em Sines ligações ferroviárias internacionais. Ou qual a estratégia de concorrência com o porto espanhol de Algeciras, nomeadamente por força do corredor ferroviário do Mediterrâneo em construção e da não ligação a Portugal prevista pelo corredor Atlântico. Não tenho espaço para recordar mais perguntas sem resposta do ministro.

Ao longo dos anos tenho aproveitado todas as oportunidades, como almoços, debates públicos e cartas escritas ao ministro Pedro Nuno Santos, para fazer estas e outras perguntas que os empresários portugueses gostariam de ver respondidas a fim de planearem o futuro das suas empresas. Acontece que a cada vez que eu e o grupo de especialistas que publicou o Manifesto sobre a ilha ferroviária portuguesa falamos e escrevemos sobre alhos, o ministro responde aos portugueses com bugalhos. Que vamos ter o maior investimento de sempre na ferrovia. Que vamos ter ligações ferroviárias entre todas as capitais de distrito. Que vamos ter uma ligação ferroviária entre Lisboa e Vigo de alta velocidade e sempre sem dar a resposta sobre a razão obscena de tudo isso ser em bitola ibérica. Afirma ainda o ministro de que os espanhóis não estão a fazer nada para ligar a sua ferrovia a Portugal, mas nada diz sobre para que servem os encontros entre os dois governos ou, já agora, para que serve a União Europeia e as suas directivas de intermutabilidade ferroviária na Europa.

O ministro Pedro Nuno Santos tem a ambição de vir a ser Secretário Geral do PS, mas penso não haver dúvida que a sua passagem, ou a sua continuação, no Governo, ficará marcada por uma elevada dose de ilusionismo político. Ou porque não sabe, ou porque tem a consciência de que está metido num buraco político sem fundo, ou por pura desonestidade intelectual, não sei a razão, apenas sei que não existe esclarecimento sobre as verdadeiras intenções do Governo. Não explica aos cidadãos, como não explica às associações empresariais, como a CIP ou a AFIA. Aparentemente, apenas tem relações cordiais com os monopólios: CP e MEDWAY.

Como é natural vou enviar mais este texto ao senhor ministro na expectativa de que ele possa, finalmente, esclarecer os portugueses. A esperança é pequena, confesso, porque estamos profundamente convencidos de que o ministro não tem respostas credíveis e tem vindo a iludir a opinião pública ao longo de todos estes anos. Veremos. ■