A batalha do ensino

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No capítulo anterior desta reflexão sobre a direita em Portugal, vimos que, apesar de alguns erros, Salazar, com a maior das probabilidades, não poderia ter sido muito diferente do que foi. 

Houve um enquistamento dentro do regime que afastou homens de elevada qualidade, Bento de Jesus Caraça, António Sérgio, António José Saraiva, muitos católicos, entre muitos outros exemplos que seria fastidioso enumerar. Foram praticamente convidados a afastarem-se do regime, quando teria sido fácil manterem-se e reformá-lo. Se pensarmos em colaboradores estreitos de Salazar, como António Ferro e Duarte Pacheco, nos anos iniciais, e Hermano José Saraiva e Adriano Moreira, depois, já na década de sessenta, percebemos que seria relativamente fácil manter figuras de grande qualidade na esfera do regime. 

Basta ver uma lista dos seus ministros da Educação Nacional, com destaque para o grande Francisco Leite Pinto e onde se inclui o já citado Hermano Saraiva, para se perceber o papel que Salazar dava à educação. É esse o tema da reflexão de hoje. Desmontamos aqui a ideia de que Salazar fomentava o obscurantismo. É falso. A curva da alfabetização desce depois do 25 de Abril. 

Em cada ano que passa, desde 1933, mais analfabetos desaparecem na sociedade portuguesa do que no pós-25 de Abril de 1974. Vejamos os dados. Em 1911 havia 68,95% de analfabetos, em 1930, já depois de alguns anos de Ditadura Nacional, havia 60,31%. Em 25 de Abril de 1974 havia 23,6% de analfabetos, hoje em dia há 5% de analfabetos em Portugal. Durante o regime de Salazar dá-se uma descida de analfabetos de 0,83% ao ano: não será espectacular, mas os analfabetos mais velhos não poderiam ser exterminados, e esses vinham dos tempos da primeira república. Depois do 25 de Abril dá-se uma descida de, pasme-se, 0,42% ao ano, um número reveladoramente semelhante ao da primeira república, tão famosa pela propalada ênfase no ensino, em que a redução se deu à miserável taxa de 0,45% ao ano! 

Poderíamos ter feito as contas em 2001 quando havia 9,03% de analfabetos, uma vez que quando o analfabetismo começa a ser baixo a sua redução específica é menor, temos assim neste período de 27 anos, de 1974 até 2001, uma descida de 0,54% de analfabetos ao ano. Poderíamos ter feito as contas para 1991, que os resultados seriam semelhantes. Usámos os dados dos sensos do INE, que são fiáveis. A única conclusão que se pode tirar é que os números não mentem. Salazar fomentou a escolarização, e os grandes números de analfabetos de 1930, mais de sessenta por cento, reduziram-se violentamente até números de cerca de 23% por alturas da chamada revolução dos cravos. 

O regime democrático conseguiu, em mais de quarenta anos, reduzir esses números para os 5% de hoje, a maior taxa de analfabetismo da Europa. É caso para afirmar que Salazar tem as costas largas para arcar com os insucessos do putativo regime democrático. 

Em resumo, a primeira república reduziu os analfabetos a uma taxa de 0,45% ao ano; Salazar e seus ministros e políticas de educação reduziram os analfabetos a uma taxa de 0,83% ao ano e a democracia a uma taxa menor de 0,42% ao ano.  Salazar manteve o povo em ordem, o ensino universitário não se generalizou, mas é completamente falso, escandalosamente falso, afirmar-se que Salazar fomentava o analfabetismo. Se quisermos ser precisos, parece que foi a democracia de Abril que fomentou esse mesmo analfabetismo, investindo menos na redução do mesmo e mantendo taxas que hoje são a vergonha da Europa, mesmo depois de 44 anos de suposta democracia. 

Existe ainda um facto crucial: não estão incluídos aqui os analfabetos funcionais e a iliteracia. Nos tempos de Salazar, quem tinha aprendido a ler sabia mesmo ler; hoje em dia, os analfabetos funcionais (onde se incluem inúmeros políticos) e a iliteracia são uma chaga que atormenta o regime democrático. É revelador que muitos políticos não consigam ler e interpretar um relatório ou que muitos portugueses não saibam o que é um livro depois dos que foram obrigados a ler, e mesmo assim não leram, na escola. 

Salazar não preparou uma classe dirigente portuguesa que lhe sucedesse, nem conseguiu identificar um homem, com qualidades, que fosse efectivamente o seu delfim. Um delfim que partisse da sua tradição para refundar o regime, que o abrisse, como Juan Carlos fez em Espanha. No entanto, tem sido difamado extensivamente. Foi um homem culto, tímido, e foi ainda medroso, tinha medo do desenvolvimento desordenado porque lhe aborrecia excessivamente a desordem. O seu maior valor, por antítese da caótica e selvática primeira república, foi a ordem. 

O receio de quebrar essa ordem dotou o sistema político de peias que impediram o seu rejuvenescimento, que se baseava em demasia num sistema repressivo e numa censura e não confiou nunca no seu próprio carisma, que era muito mais elevado do que ele próprio estimava. Era a antítese de um Mussolini, fanfarrão e popular, ou de um demagogo em extremo como Hitler, apesar de também ter tido a sua dose, em muito menor grau, de manifestações populares em que houve encenação demagógica. No entanto, todos os seus discursos eram racionais, pensados, lógicos, o insuspeito António José Saraiva o afirmou. Não era um actor histriónico, baseava o seu magistério na doutrina social da igreja, ou na leitura que dela fazia, era cauteloso e ao mesmo tempo extremamente arguto. 

A falta de preparação de um sucessor digno, e o seu receio da desordem, acabaram por cristalizar o regime e deixá-lo com pés de barro por falta de elites jovens que o sustentassem na hora da verdade após a transição para um inteligentíssimo Marcelo Caetano, mas que era também débil politicamente e já envelhecido. Seis anos após a queda da cadeira, tão discutida por outros que não vale a pena referir, o regime de Salazar, o Estado Novo, caía. O país ficou maduro para um golpe em que, depois da turbulência e dos ataques comunistas ao poder, a falta de elites deixou que o novo regime fosse formatado por aventureiros e oportunistas que prepararam o regime corrupto de hoje, os mesmos sucessores dos devoristas que ocuparam o poder após a guerra civil de 1833. 

Difamar Salazar como se fosse um criminoso é negar a história e a evidência, é olhar a história com olhos de partidário e não pesar todas as facetas de cada homem e de cada facto. Nas próximas edições veremos como se poderá tentar reformar democraticamente um regime em que caiu o Portugal de hoje. Depois desta breve análise da figura tutelar da direita portuguesa, veremos que a doutrina social da Igreja Católica ainda é suficientemente avançada para, no seu humanismo, poder reformar uma sociedade. ■ 

(Continua)