Condenados à miséria

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A epidemia que vivemos tem afectado a sociedade portuguesa de forma muito particular. Os efeitos da pandemia global fazem-se sentir com mais efeito no nosso país porque não estávamos preparados em termos de equipamentos e profissionais de saúde, em termos da direcção dos meios de saúde e em liderança global do país.

Uma economia que há centenas de anos vai vivendo das diferentes árvores das patacas que temos conseguido descortinar assentava hoje em dia no turismo e na destruição e descaraterização do território, como passamos a explicar.

O turismo é a venda dos nossos recursos naturais, clima ameno, sol, praia e paisagens aos turistas mais ou menos endireinhados e, sobretudo, oriundos da Europa.

Ao contrário do turismo austríaco, por exemplo, que assenta na cultura, grandes festivais, ópera, concertos e também, mas vendendo sobretudo aos locais, nos desportos de Inverno, Portugal, país desclassificado, apenas consegue vender recursos baratos a turistas massificados. Vejamos, por exemplo, o que acontecia com as hordas de hooligans alcoolizados ingleses no Algarve, de facto o protótipo do turista típico que nos visita. O turista de massas procura praia, álcool barato e confusão, não tem sensibilidade para a Natureza intocada, aloja-se em hotéis e hostéis baratos, encafua-se em locais como Albufeira, uma espécie de bairro clandestino periférico de qualquer cidade europeia, como é, também, Benidorm, na costa espanhola.

A par deste turismo de massas, pouco exclusivo, temos a construção desenfreada de aldeamentos, hotéis sem categoria, projectos arquitectónicos sem qualquer qualidade, destruição dos recursos naturais. É uma associação perigosa, pois o governo não fiscaliza, pelo contrário, incentiva a barbárie, e as nossas grandes riquezas ecológicas e paisagísticas estão a ser dilapidadas a um ritmo acelerado. Depois de toda a costa algarvia ter sido assassinada, temos agora o assalto ao litoral alentejano, o massacre previsto para a Comporta e a já avançada destruição do Bom Sucesso junto à lagoa de Óbidos, um dos maiores crimes ambientais de que há memória em Portugal, que alegremente está a ser edificado sobre dunas frágeis e destruindo ecossistemas únicos. Juntando a isto a criminosa destruição de toda a nossa floresta com o cultivo indiscriminado do eucalipto, uma espécie invasora perigosíssima, probida, por exemplo, nos Estados Unidos, fomentado pelo grupo das celuloses que tem tido diversos governos no bolso, temos um caldo de cultura que tem arruinado o país.

As cidades mais importantes foram vendidas e hipotecadas aos interesses imobiliários e a este violento assalto do turismo, expulsando os seus habitantes para os horrendos bairros periféricos onde vivem amontoados sem qualidade de vida.

Esta situação, a par da corrupção endémica portuguesa e de outros problemas sociais, muitas vezes relaccionados com a falta de qualificações dos portugueses, criou um tecido social muito vulnerável. O Socialismo de Estado que nacionaliza os rendimentos de todos, menos dos amigos do regime, deixou os portugueses médios na miséria. Basta uma epidemia, que parou completamente o turismo e a restauração, para deixar 15% a 20% dos portugueses em grandes dificuldades.

Seria tempo para repensar Portugal, para reorientar a sua economia, mas os milhares de milhões de euros que aí vêm serão para dar aos amigos do costume, como se percebeu com a manobra do hidrogénio que irá para o lobby da energia, onde pontifica a organização sinistra que também tem tido o Estado no bolso, que é a EDP, não serão para modernizar, qualificar, apostar nas tecnologias autóctones de ponta. Somos capazes da inovação, começamos a ter cérebros e alguma gente qualificada, mas o presidente da república, com minúsculas, continua a andar de mão estendida, a fazer figuras tristes, para convencer os ingleses a virem espalhar o vírus da COVID-19 em Portugal e não se prepara a avassaladora segunda vaga que se adivinha e cujos sintomas já estão a parecer com o crescimento das útimas semanas. E com o COVID-19 vem a negligência das outras patologias e um enorme incremento da mortalidade por outras causas.

Soma-se a isto tudo a Festa do Avante, em que, para satisfazer as necessidades de financiamento de um partido anquilosado, casmurro, enquistado em posições políticas há muito enterradas com o muro de Berlim, se sacrifica a saúde dos portugueses. Pelo menos 20 infectados, pelas contas de estatísticos apresentadas no jornal ‘Expresso’, vão espalhar o vírus nesta festa em cada um dos três dias que começam hoje. Serão, pelo menos, 400 infectados que sairão da Festa do Avante, representarão à volta de 50 mortos nas semanas finais de Setembro e provavelmente mais em Outubro. Mas há que manter o partido comunista tranquilo, de forma a não haver greves e a ter a aprovação do Orçamento. A DGS estipulou um número ridículo de 16.563 (!) para a lotação, repare-se na exatidão que nunca cumpriu nas suas contas, e será o próprio PCP a verificar se este número está a ser cumprido. É um assunto que revela a enorme desigualdade de tratamento que neste país os partidos têm face aos cidadãos que contribuem para o PIB e com os seus impostos para o funcionamento do Estado.

Resta a conta de 4 mil milhões de euros, a serem pagos também por nós, do Novo Banco. Para cobrir os negócios desastrosos desta administração cá estamos todos, mas para dar de comer aos artistas, aos sócios gerentes, aos trabalhadores afectados com o COVID-19 há um regime de esmolas que, exigindo tanta burocracia, poucos conseguem mendigar.

Resta a DGS, que devia estar a preprar a segunda vaga, a contratar pessoal qualificado, a fazer planos, a preparar meios, mas qual quê! A panaceia parece assentar numa aplicação de telemóvel, que gasta a bateria num instante e que depende da boa vontade de quem tem smartphones, uma panaceia apresentada por António Costa como se tivesse descoberto o caminho marítimo para a Índia, uma panaceia que seria útil se usada por todos mas que não resolverá absolutamente nada. As pessoas continuarão a morrer de COVID-19, que no final do ano será a doença contagiosa a matar mais gente no mundo, sem a menor sombra de dúvida. 

Até quando seremos afectados pela nossa falta de planificação e de estruturação, pela nossa corrupção e desordenamento? Até quando olharemos para a Alemanha a prosperar, apesar da pandemia, e nós a definhar sonhando pelas hordas de ingleses bêbados que, qual miragem, vão deixar uns patacos para a nossa mísera sobrevivência?… ■