Greta e Medina, ou somos todos activistas

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Na passada Terça-feira, Greta Thunberg chegou de veleiro em Lisboa vinda dos Estados Unidos. Reuniu-se na doca de Santo Amaro uma trupe constituída de alucinados, deslumbrados e oportunistas políticos. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

Os mais louváveis foram os jovens ingénuos, que ainda acreditam nas Santas Gretas deste mundo, bem-intencionados, mas altamente incongruentes. De telemóveis e outros gadgets, filmavam e filmavam-se enquanto esperavam. Depois da Greta partir foram todos comer uns hamburgers às casas de comida rápida da região das docas. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

Havia políticos para todos os gostos. Desde o PSD, pasme-se, até ao PAN e Bloco de Esquerda, todos louvavam a Greta, todos esperaram a Greta por longas horas desde madrugada. Todos falavam de forma redonda no ambiente que era preciso preservar e na mensagem da Greta, a mensagem de esperança para acordar o mundo e lembrar as alterações climáticas. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

Era ver os deputados, do PS, os mesmos deputados do governo do lítio em Trás-os-Montes, era ver as figuras armadas em figurões do PAN, para quem o consumo de carne é “um dos maiores responsáveis pelas alterações climáticas”. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

Era ver os palhaços vestidos de vermelho, ninguém sabe bem quem nem ao que vinham, em guarda de honra à Greta, com cartazes ininteligíveis e palavras de ordem incompreensíveis gritadas do meio do rio, onde ninguém os podia escutar. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

Era bem de ver, as jovens que faltaram à escola para verem a Greta, pois a Greta é bem mais importante do que as aulas, e aprender para compreender o mundo, o ambiente e as alterações climáticas, porque o que a Greta diz é Lei e sagrado, as aulas não contam a verdadeira história, a Greta de dezasseis anos sabe tudo e tudo sabe e está zangada contra os senhores que mandam no Mundo e mandam os meninos à escola, o que é uma opressão inqualificável. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

E a Greta não vinha pelas 8h, como estava previsto, e estava frio, um frio malfazejo e húmido, um vento incómodo que fazia atrasar a Greta e também despenteava os descabelados, alguns já carecas, que esperavam a Greta, lá estavam todos em fila, na doca, esperando e mais esperando. Era ver os senhores da Associação Zero, que a Quercus já foi chão que deu uvas. E todos peroravam. E todos debitavam verborreia para as televisões que tinham de encher chouriços a manhã toda à espera de Godot, perdão, da Greta. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

E estavam jornalistas, jornalistas imberbes, também descabelados, os mais jovens, os mais imberbes, os mais estagiários ou pós-estagiários que se puderam encontrar nas redacções, que isto de ir para a Doca de Santo Amaro pelas 8h, numa manhã fresca de Dezembro, não é para grande repórter ou jornalista consagrado. E os desgraçados, entregues aos bichos, que, aliás, eram em número baixo, mas promovidos a multidão de “algumas centenas”, “mais de uma centena”, “quase uma centena”, de acordo com o órgão de comunicação, faziam jus ao descabelamento e falavam, todos falavam, para os canais de notícias que ninguém vê numa manhã de trabalho a uma Terça-feira de Dezembro. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

E os jornalistas perguntavam: acha que há mesmo aquecimento global? E de quem é a culpa? E a Greta tem razão? Acha importante estar aqui a receber a Greta? Esperar a Greta? O que espera que ela, a Greta, vai dizer aos portugueses? E eles, os descabelados, iam respondendo, todos cheios da sua importância, que isto de receber a Greta é como receber a hóstia, está apenas destinado a alguns eleitos. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

E eles olhavam, e houve falsos alarmes, um veleiro ao longe aparecia, mas não era a Greta, era uma trupe de velejadores curtidos pelo Sol, que não ligava muita importância ao circo da Greta, e isto seguiu-se manhã toda. A loucura de às 9h haver notícias de última hora “Greta Thunberg está prestes a chegar a Lisboa”, notícia que era repetida às 10h e às 11h e ao meio dia. Cada vez mais a chegar estava Greta no seu veleiro de 14 metros, um catamarã, “propriedade de um casal australiano”. Pelas 13h lá se repetia a cena. E agora sim, alvíssaras, a Greta, pequena, juvenil, no seu fato de velejadora chegava ao porto. A multidão agitou-se, a Greta saiu, mas a trupe agitou-se e logo se desiludiu, a Greta voltava para o barco. O SEF queria verificar a papelada, e assim se passaram mais quinze minutos. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

E depois da 13h, sai a Greta do barco e dirigiu-se ao povo, aos tais cem populares que a esperavam. Os políticos, as crianças e jovens, os activistas e os basbaques ouviram então a sua profetisa. E Greta falou, simples e directa, dizendo coisas com sentido, mas que muitos tomaram como as palavras de um oráculo, sobretudo os ingénuos e os deslumbrados. Os outros, os políticos, os oportunistas, esses fingiram que gostavam, aplaudiram e apareceram. E Medina também aparecia, ao contrário de Marcelo.

O grande momento deu-se então. Ao contrário de Marcelo, que não se queria aproveitar politicamente da Greta, como se não se aproveitasse politicamente de tudo o que faz, de todas as selfies, de todos os cromos que visita depois de actos mais ou menos meritórios, o homem que condecora tudo o que mexe, o Medina, o homem que também aparecia, apareceu mesmo! Medina, o maior fautor de engarrafamentos em Lisboa, responsável por uma cidade em constante e total engarrafamento, pela emissão catastrófica de gases poluentes, pelo horrível ambiente da cidade, nomeadamente em termos de poluição sonora, o homem responsável pela degradação da qualidade de vida da cidade de Lisboa, apareceu, tal como a Greta, e discursou. A aparelhagem estava pronta e o palanque montado. Era o ramalhete completo, a feira cumpria o seu destino, apenas faltou o capitão do porto e o padre da paróquia local. Na sua falta apareceu o Fernando Medina, ao contrário de Marcelo, e discursou. Disse ele: 

– “Greta is between us!”

Ou seja, descontando o péssimo Inglês de Medina, uma vez que “between” se diz sobre objectos, talvez se pudesse traduzir como: 

– A Greta está [cravada] no meio de nós!

Se Medina soubesse Inglês, teria dito: “Greta is among us!”. E assim foi, a Greta chegou e Medina, criticado severamente por Marcelo por se ser um oportunista político, apareceu e falou, falou e disse asneira. E Medina apareceu, ao contrário de Marcelo.

Viva a Greta, que é simples e diz coisas com sentido, viva o folclore, viva o povo e a moda, viva a liberdade e vivam os “activistas”, no fundo, bem no fundo, todos os que têm alguma actividade. ■