O labirinto de Marcelo

"Marcelo ficou refém da reeleição, refém da popularidade, sempre procurando consensos, nunca entrando em ruptura. Como é sabido, cão que ladra não morde"

0
438

Os candidatos não folclóricos à presidência da república portuguesa já se perfilam. Temos na direita André Ventura, do CHEGA, na esquerda temos Marcelo Rebelo de Sousa, que está no centro-esquerda recebendo votos do PSD e do PS obediente a Costa, Ana Gomes, que se situa na esquerda do PS e capitaliza os descontentes de Costa, na esquerda radical dos costumes temos Marisa Matias pelo Bloco de Esquerda, e, finalmente, na esquerda conservadora e reaccionária temos João Ferreira pelo PCP.

A presidência portuguesa está esvaziada de poder; não serve, basicamente, para nada; é apenas uma válvula de escape das emoções dos populares. 

Marcelo serviu para retirar poderes à presidência da república. Nunca desfrutando de tanta popularidade, mais do que todos os presidentes anteriores, o presidente eleito com 52% dos votos actuou como “presidente dos afectos”, substituindo Aníbal Cavaco Silva, o presidente distante e crispado. Marcelo foi uma imagem de simpatia que se repercutiu nos milhões de ‘selfies’ que tirou com todos os portugueses que se lhe atravessaram no caminho. 

A sua simpatia é, no entanto, inversamente proporcional à sua capacidade de resolver os grandes problemas de Portugal, sendo os principais a falta de visão dos governantes executivos, a corrupção, o nepotismo e a pequenez mental da maior parte dos portugueses.

Já aqui explicámos que Portugal peca pela ausência de elites intelectuais e de acção. É tudo tacanho, os empresários são pequenos, vivem de esquemas e não de investimentos pensados, o Estado esmagador comprime tudo o que se tenta produzir com impostos avassaladores, confiscadores, e os que prosperam devem-no ou a extrema visão e capacidade, contra tudo e todos, ou devido ao facto de serem amigos do regime, graças aos favores. Assim parece ter sido com o Banco Espírito Santo, de cujos dirigentes Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de ser amigo.

Marcelo ficou, pois, entalado entre o enorme capital de popularidade, ausência de poderes reais, condenado à simpatia para poder influenciar algumas decisões políticas, mas sempre refém da reeleição, sempre refém dessa mesma popularidade, sempre procurando consensos, nunca entrando em ruptura. Como é sabido, cão que ladra não morde. Marcelo ameaçou, chegou a zangar-se, como no caso dos mortos em incêndios de 2017, mas quando os incêndios se repetiram, agora quase sem óbitos associados, calou-se, isto após o governo nada ter feito de estrutural na floresta portuguesa e ter continuado a alimentar a rapaziada da celulose. 

António Costa, um táctico, pragmático, que se alimenta do poder para poder sobreviver, homem sem quaisquer qualidades de estadista, excepto a extrema flexibilidade da sua coluna vertebral, percebeu que tem na presidência um cão sem dentes. Desde que o ego de Marcelo seja convenientemente adulado, será sempre um presidente dócil que fará uns vetos formais de leis feitas expressamente para serem vetadas; estas leis e decretos são uns rebuçados para a afirmação pessoal do presidente. 

Marcelo tem sido completamente manietado por António Costa, que manuseia a presidência como se fosse uma marioneta do PS. É, pois, altamente conveniente manter Marcelo no poder: mesmo que os vetos se tornem incómodos, existe sempre uma maioria de esquerda, que se compra com festas do avante ou mais direitos para os grupos LGBT-etc ou uma baixa no preço dos veterinários ou uns rebuçados para a gaguês, para rebater os vetos do presidente.

Nestas mesmas páginas tínhamos escrito que Marcelo, se quisesse, podia ser o presidente da ruptura, com capitais de popularidade muito elevados o presidnete poderia ter exigido quase o que quisesse em matéria de corrupção ou de reforço do Estado de Direito, mas preferiu andar a fazer selfie e a passear por feiras dos livros e a mandar bitaites, como se fosse ainda um comentador político. Foi uma gigantesca desilusão para a direita conservadora e democrática que Marcelo fosse o agente do status quo, da estagnação, do pântano socialista dos favores e da corrupção global de Portugal.

Para a direita portuguesa não sobram alternativas. Marcelo será reeleito, mas se a direita quiser agitar as águas, colocar pressão sobre os corruptos que mantêm o poder nas suas mãos há quase cinquenta anos, a única alternativa que têm será votar André Ventura. No caso das esquerdas há uma enorme divisão dos votos, teremos Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira. Quem votará em Ana Gomes serão os descontentes do PS com Marcelo e alguma direita que não suporta André Ventura, ele também, tal como Costa, metido nos meandros sinistros do futebol e de Luís Filipe Vieira. Os restantes candidatos de esquerda terão os votos residuais dos apaniguados.

Provavelmente, a massa dos portugueses, que votaria alegremente numa Cristina Ferreira se aparecesse nas eleições, nem sequer pensa na inutilidade que foi Marcelo na presidência, votará nele porque é simpático. Provavelmente, e esse é o meu prognóstico, Marcelo será eleito à primeira volta, com André Ventura em segundo lugar e Ana Gomes perto, precisamente por causa da popularidade do candidato de centro-esquerda.

Mas não será um passeio no parque: se os desiludidos da política resolverem votar em vez de se absterem, pode ser que haja uma surpresa nestas eleições. Qualquer ruptura será positiva, seja de Ana Gomes, seja de André Ventura, apenas pela ruptura e pela clarificação que poderá produzir na sociedade portuguesa.

Marcelo, quase certamente reeleito, continuará no seu labirinto mental, refém do PS, refém das selfies e da sua mania de querer passar à história como um homem popular, continuando a fingir que é presidente de um país sem presidente e a pôr a mão por baixo a António Costa, jogando em que os seus eleitores naturais, assim ele pensa, não o abandonarão. Marcelo é um populista sem povo, um populista sem poder, manietado por ele próprio, e assim ficará para a história, o campeão da desilusão de um povo. Querendo agradar a todos, não agradará a ninguém. ■