Um programa, um destino

0
392

A direita portuguesa (e falamos sobretudo do CDS-PP e de outros sectores não alinhados, como o dos monárquicos de direita que votam em partidos do sistema porque nem eles próprios acreditam num possível retorno à monarquia, ou no sector dos católicos militantes, que se dispersam por diversos partidos) hoje em dia ainda enjeita envergonhadamente a herança de Salazar. 

Apenas meia dúzia de trauliteiros bem-intencionados, mas errados na sua ‘praxis’, porque fazendo uma leitura apenas autoritária e xenófoba de Salazar, celebram alguns aspectos, aliás os mais anacrónicos, do ideário político desse grande estadista português do Século XX. Pensamos que Salazar verberaria fortemente gente como a do PNR, ou de outros movimentos que são dirigidos por gente básica e sem grande cultura doutrinária e filosófica, aquilo de que Salazar precisamente mais dispunha, uma enorme bagagem filosófica. 

São necessárias grandes referências na direita portuguesa. Essas referências, no plano dos vultos históricos, serão, na história recente: Passos Manuel, o homem do ensino; Fontes Pereira de Melo, o do desenvolvimento e obras públicas; D. Carlos, o homem das artes e da ciência; Sidónio Paes, o arauto do desenvolvimento, da reconciliação nacional e da tolerância; Salazar, homem da ordem, da riqueza sustentada, que salvou Portugal da II Grande Guerra Mundial, do progresso lento, mas sólido, e do ensino. No regime pós 1974, temos o visionário e efémero Sá Carneiro e pouco mais. Ao longo da história destaca-se a figura imperial de D. João II como grande referencial de Portugal, secundada pelo visionário que foi o Infante D. Henrique. 

O grande filósofo que a direita portuguesa pode assumir como seu é, claramente, António Quadros, e o seu ideário a procura do novo Império de Portugal, o Quinto Império. O seu grande poeta é Fernando Pessoa. Vasco Graça Moura era um intelectual de direita, mas que não produziu matéria ideológica. Jaime Nogueira Pinto e Vasco Pulido Valente estão vivos, são pensadores e historiadores de direita, um mais lúcido o outro mais cáustico, mas a sua intervenção é reduzida.

A grande pergunta é esta: qual o programa que pode levar à realização da utopia do V Império, o Império da razão, o Império do Espírito, o Império de Portugal no Mundo? Terá de ser pragmático; ninguém hoje em dia lê António Quadros, apenas uma elite de intelectuais e filósofos conhece o mestre do V Império. O programa da direita portuguesa tem de se centrar no povo português, no regresso às origens, na alavanca dos grandes programas nacionais, na teleologia estratégica de todo um país. Sem essa motivação, Portugal estagna, morre suavemente, dissolvendo-se no nevoeiro. 

O Infante D. Henrique imaginou o programa que se desenvolveu gradualmente e que D. João II concretizou sem colher dele os seus frutos. D. Manuel colheu os frutos, mas não soube revitalizar esse programa e dar-lhe outra dimensão que não a da recolha e manutenção das conquistas. D. João III acabou com qualquer ideia teleológica, retirou-se, tacanho e vil, rato de sacristia metido nas saias dos dominicanos da Inquisição; o Brasil foi mais fruto do acaso, da vontade de emigrantes particulares e dos jesuítas, do que de qualquer inspiração do monarca que proscreveu D. Miguel da Silva, o supremo homem do renascimento, o “Cardeal de Viseu”, o arquitecto do concílio de Trento.

A partir daí, Portugal reduziu-se. O ouro do Brasil trouxe uma réstia de luz a um país em decadência e as guerras liberais fizeram o resto. Salazar governou sobre os despojos de um império e de um povo enfraquecido, sem programa, sem razão, sem mistério. Conseguiu ganhar uma guerra colonial apenas pela força férrea da sua vontade, mostrando que Portugal ainda consegue ter alguma coragem quando tem um dirigente capaz. O povo português, mais tarde, mostrou a sua força quando lutou, pacificamente, pela justiça após o massacre de Santa Cruz, em Timor, contra a injustiça e arbitrariedade indonésia, de tal forma que apenas a sua força trouxe a causa de Timor Leste para o palco das nações e acabou por devolver a Timor a sua dignidade perdida; a Portugal lavou a consciência da cobardia demonstrada no rescaldo do 25 de Abril, em que deixámos à sua sorte um povo indefeso perante a potência regional da Indonésia. 

Como encontrar esse programa? Na raiz religiosa, mística, um pouco louca, afoita, corajosa do povo português perante a adversidade. Egoístas e mesquinhos em tempos de degenerescência, os portugueses conseguem mobilizar-se e trabalhar em equipa para superarem os maiores obstáculos se o objectivo for suficientemente grandioso. 

O primeiro obstáculo que Portugal defronta é a pobreza relativa face à Europa. Essa decadência assenta na falta de qualificação dos portugueses, na corrupção generalizada da classe política, reflexo da decadência generalizada dos portugueses, e na pobreza do território nacional em recursos evidentes. O falso Eldorado do turismo é uma chaga que tornará os portugueses ainda mais débeis e dependentes do exterior e das gorjetas que os outros cá virão deixar, ao sabor do clima, da ausência, fortuita, dos atentados terroristas e da ausência de catástrofes naturais. Nunca dependeremos de nós se apostarmos no turismo. Poderá servir para ultrapassar crises, mas nunca dará sustentabilidade a um país. É necessário à direita portuguesa ter uma teleologia, um destino, um projecto que reúna o país num grande destino para poder afirmar-se. Para isso é necessário ter uma grande afirmação na sociedade portuguesa, ter um dirigente carismático, inteligente, culto, que não seja um populista algo tonto que telefona em directo para programas da televisão de estrelas mais ou menos cadentes, mas que seja sério, nos bons e maus momentos. Esse é um ponto essencial que parece não existir de momento. 

A matriz programática deve assentar na doutrina social da Igreja, que se ajusta como uma luva à matriz conservadora, religiosa, mística e ciosa dos seus valores e das coisas da maioria dos portugueses, mas que também sabe ser generoso e capaz de sacrifício se tiver bons exemplos e objectivos concretos. Assegurando a dignidade do Homem, centrando toda a sua visão na igualdade dos seres humanos perante Deus, consagrando a propriedade privada, mas também a justiça social e a dignidade do trabalho e a sua remuneração justa, o direito ao descanso, à fruição dos tempos livres, ao ensino, à saúde e justiça, a doutrina social da Igreja terá de ser forçosamente a doutrina principal da direita portuguesa, o que exclui liminarmente o liberalismo económico, e de costumes, do ideário de direita. 

O liberalismo não tem qualquer hipótese de triunfar em Portugal. Veja-se a rejeição que a população portuguesa deu, à posteriori, às políticas de Passos Coelho quando esbanjou os recursos do Estado entregando-os a grupos privados seleccionados, de tal forma que o PSD, esse partido do centrão dos interesses, não voltará tão cedo ao poder. ■

[Continua]