Portugal, que futuro?

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A afirmação poderá ser um pouco excessiva, mas relativamente ao Portugal de 2020 e anos seguintes, não é difícil de prever o que acontecerá, porque não existindo na sociedade e na política portuguesas o pensamento e a energia necessários para a mudança, o futuro será a continuidade dos últimos trinta anos de navegação à vista. Isto é, um futuro de resignação política, económica e social. Na vida dos países não há milagres e como escreveu um conhecido senador brasileiro, o progresso social depende de uma economia forte, algo que Portugal não tem.

Claro que pode sempre surgir do nevoeiro nacional um ser providencial que, a exemplo de outras épocas e países, seja um factor isolado de mudança.  Aconteceu connosco com D, João II e com o Marquês de Pombal no passado e, mais recentemente, na Irlanda, em Singapura e na China de Deng Xiaoping, mas não é provável que aconteça proximamente entre nós.

Ou seja, vamos continuar a ser um País pobre, um dos mais pobres da União Europeia, caracterizado por salários muito baixos, uma produtividade estagnada e impostos estratosféricos. Em Portugal, uma família que tenha um rendimento anual de 42.000 euros é abastada, de 84.000 euros é rica e de 140.000 euros milionária. Se alguma destas famílias tiver feito a asneira de alugar uma ou mais casas em regime de curta duração, então os impostos crescem ao ponto de os investidores passarem a perder dinheiro. Por isso, com a queda do turismo, a probabilidade é a de que essas famílias passem a pagar ainda mais para a corrupção financeira do Estado, ou vendam as casas depressa se tiverem quem as compre. Melhor, façam o mesmo que o Bibi do Benfica e tantos outros, que só têm de rendimento o ordenado mínimo, ou peçam conselho ao ex-ministro Dias Loureiro, de forma a vender as casas, baratas, a uma empresa recém-criada no Panamá, ou num outro qualquer lugar com sol e praia para férias. A partir daí passam a ser uma família portuguesa modelo. 

Sendo a preocupação principal do Partido Socialista e de António Costa a detenção do poder, e tendo já sido definido publicamente que partiram para um terceiro mandato, é evidente que não haverá mudanças  governamentais que possam prejudicar essa finalidade. E, como assistimos ao longo dos últimos quatro anos, quer o PS, quer os partidos à sua esquerda, têm o domínio de uma parte maioritária da comunicação social, com todas as condições de se manter  no futuro, nomeadamente agora que o sector se encontra com grandes dificuldades financeiras e na expectativa de receber apoios do Estado, apoios que, com o Governo de António Costa, nunca serão inocentes. Ou seja, a máquina socialista está montada e bem oleada para que a corrupção do poder vença o progresso nacional.

Apesar disso, os partidos à esquerda do PS – PCP e Bloco de Esquerda – terão dificuldades crescentes em justificar a sua existência junto dos seus eleitores com um PS em bom plano na opinião pública, e assistir-se-á a protestos de franjas dos dois partidos, mas, como bem disse o actual ministro dos Negócios Estrangeiros, ambos terão muita dificuldade em derrubar o Governo, depois de quatro anos de coabitação e com o risco de abrirem as portas ao que chamam a direita. Por isso, a decadência do PCP é praticamente certa e veremos o que acontecerá com o Bloco de Esquerda, que terá uma oposição interna, para todos os efeitos, mais operacional. 

É ainda evidente que a situação económica da Europa e do Mundo não se manterá com o mesmo nível de crescimento dos últimos quatro anos e, ainda que uma próxima crise económica não seja certa, não haverá dinheiro para os investimentos previstos, será difícil que os juros baixos se mantenham durante muito tempo e que a política do Banco Central Europeu seja a de continuar a comprar a dívida dos bancos. Igualmente, os factores que mais ajudaram o PS no poder, o crescimento do emprego e das exportações, também não estão garantidos, seja porque já estamos próximos do pleno emprego e as exportações já deixaram de crescer. 

Assim, apesar de ser certa nos próximos anos a degradação da economia nacional pelas razões descritas, corremos outros riscos mais ou menos previsíveis: a subida das taxas de juros será o maior risco, mas dado que as contas certas foram obtidas, em grande parte, cortando no investimento, não poderemos esperar concorrer em boas condições com os outros países europeus onde o investimento, público e privado, continuou a ser feito da forma prevista.

Apesar disso, tudo indica que o Partido Socialista tenha a chave do poder político em Portugal nos próximos anos, que continue a diabolizar com sucesso Pedro Passos Coelho e os partidos à sua direita e através da sua poderosa máquina de propaganda possa adiar a queda. No fundo, não é uma situação muito diferente da que tivemos na República de 1910, nos quarenta anos do isolamento internacional de Salazar e durante uma parte relevante do pós-25 de Abril. Aparentemente, os portugueses preferem a segurança de nada ser feito aos riscos da mudança.

Ainda que actualmente a mudança necessária não comporte riscos. Tratar-se-ia, principalmente, de parar de governar para o curto prazo e de distribuir algumas benesses aos servidores do Estado, aos políticos no poder e aos corruptos, à custa do futuro dos nossos filhos e netos, e de dar a Portugal uma verdadeira estratégia de progresso e de desenvolvimento. O que passaria por fazer uma verdadeira revolução na educação, com a prioridade absoluta a ser dada à frequência de creches e do ensino pré-escolar de qualidade das nossas crianças, de forma totalmente gratuita, em vez da prioridade dada às universidades, porque é essa a forma de terminar com a pobreza e a ignorância endémica entre nós e de fazer chegar ao Ensino Superior Jovens bem preparados para aí terem o sucesso a que aspiram.  

Trata-se de dar prioridade à qualidade do trabalho dos portugueses, nomeadamente na actividade privada, mas também no Estado, com um único grande objectivo económico: o aumento das exportações para um mínimo de 80% do PIB, atraindo para Portugal o investimento industrial estrangeiro e direccionando o investimento público para melhorar a logística exportadora nacional, o que comporta alargar e automatizar o porto de Sines e construir uma ferrovia moderna em bitola europeia de mercadorias em direcção ao centro da Europa. Demonstrando assim aos investidores estrangeiros e portugueses que Portugal, no centro das rotas do Atlântico, é o local ideal para receber importações de componentes de todo o mundo e exportar produtos acabados para todo o mundo.

Não se trata de esquecer outras necessidades nacionais como a Saúde, mas apenas de criar condições económicas semelhantes às existentes nos outros países europeus mais avançados, a fim de ser possível sustentar um bom sistema de Saúde para todos, público e privado. O mesmo se poderá dizer das outras necessidades sociais, criando uma economia do trabalho e do investimento e terminando com a economia da dependência das famílias portuguesas do Estado, fazendo-o de forma equilibrada e sensata, o que é inseparável de acabar com séculos de pobreza e de ignorância em Portugal.

Como é evidente, nada do que proponho é compatível com a governação do PS, com a benevolência nacional com a corrupção e com os privilégios de um Estado clientelar, desorganizado e consumidor de recursos. Assim sendo, o futuro nacional é o da estagnação. ■