Uma abertura impossível

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No final do último artigo afirmámos: Salazar, cinquenta anos depois, tem de ser avaliado no seu papel positivo, que supera largamente os defeitos que admitimos que teve, os maiores dos quais foram ter mantido um aparelho repressivo e não ter aberto o regime mais cedo. Continuamos explicando que abrir o regime mais cedo poderia ter tido consequências trágicas. 

O regime soviético, com o pretexto da ideologia comunista, no pós-guerra estabeleceu um império colossal que se estendia sobre toda a Europa Central e Oriental, a famosa cortina de ferro de Churchill, e que se expandia à Indochina, à Asia desde a Síria até à China e Coreia do Norte, passando pelo Afeganistão, com influências na Índia. A África não escapava aos avanços soviéticos. Quase todas as independências de África tinham originado regimes de influência russa, os movimentos guerrilheiros eram pagos pela China e, sobretudo, directamente pela Rússia soviética. A América do Sul e mesmo Cuba vieram a cair sob a influência russa, à qual se seguiu uma forte reacção americana. 

No entanto, Salazar não viu os frutos dessa reacção, apesar de ter acompanhado com preocupação os avanços comunistas dos anos cinquenta. A Salazar, como católico, como homem social, repugnava profundamente a ideologia comunista, que nos últimos anos não tem sido denunciada com rigor pelas direitas portuguesas, vendo os partidos do poder, o partido comunista e o bloco de esquerda, com alguma benevolência, a benevolência dos ignorantes que esqueceram os Gulags, as atrocidades de Estaline, os morticínios de Pol Pot, os genocídios de Mao Tse Tung. Os horrores comunistas foram largamente piores do que os horrores nazis. 

Salazar conhecia perfeitamente os horrores do comunismo, a morte generalizada por razões ideológicas, como a dos milhões de pequenos proprietários russos, ou por simples paranóia, tanto na Rússia como nos regimes selváticos da Ásia já mencionados. Sair de África antes do tempo nunca ocorreu a Salazar, que percebeu que ao abandonar as províncias ultramarinas estas cairiam no pasto dos movimentos de influência soviética, na corrupção, na morte indiscriminada, nas violações, na decadência económica, moral e social que o comunismo sempre trouxe onde foi dominante. 

O comunismo, para além da devassidão moral, da opressão e do totalitarismo mais violento e insidioso sobre todas as esferas dos cidadãos, nomeadamente na regulação do pensamento e da vida privada, para além dos meios de produção, é brutalmente ineficiente em termos económicos, fomenta a corrupção, e, em países sem quaisquer elites preparadas, países tribais, o comunismo acabaria em regimes absolutos de ditadores sanguinários com a destruição dos poucos meios de produção e do pouco desenvolvimento que tivessem tido até então. 

Negociar a saída das colónias portuguesas antes do tempo, assim pensava Salazar, iria entregar a Índia, Angola, Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, para além de Timor, aos inimigos confessos da civilização ocidental, regrada, católica, moralmente estabilizada destas regiões. Nunca conseguiria, com os fracos recursos de Portugal continental, formar uma comunidade de Estados, como a Commonwealth, tanto mais que não dispunha de máquina industrial e comercial, de universidades atractivas, e mesmo de meios militares, que pudessem integrar os interesses e assegurar a defesa dos novos e hipotéticos Estados após a putativa independência. Esta questão, assim, nunca se poderia colocar. 

Interessava a Salazar, na sua teimosia tipicamente beirã, aliada à convicção de que tinha toda a razão, manter a todo o custo as províncias ultramarinas, desenvolver as mesmas de forma gradual e lutar contra a maré comunista tanto quanto possível. Seria difícil, seria lutar contra um “tsunami”, mas Salazar era inteligente e obstinado e tinha fé nos portugueses, os mesmos que tinham conquistado o Mundo quatrocentos anos antes. Abrir o regime nunca fez sentido para Salazar. 

Hoje podemos afirmar que, se tivesse sido clarividente, talvez pudesse ter integrado as parcas elites africanas no sistema de governo e tentado governar com mais liberalidade os povos indígenas, mas até nisso foi traído pela escassez dos recursos de Portugal e pelo atraso endémico da maioria dos próprios colonizadores, que encaravam as províncias ultramarinas mais como uma forma de enriquecer do que agentes de progresso e de civilização.

A história veio a dar razão a Salazar: a descolonização trouxe o caos de influência comunista aliado à selvajaria tribal dos sobas africanos. Savimbi, Eduardo dos Santos, os ditadores da Guiné, Samora Machel e seus sucessores em Moçambique, fizeram dos novos Estados emergentes da revolução de Abril uma série de falhanços onde grassa a miséria e a corrupção. Terá sido culpa de Salazar? Cinquenta anos depois, será ainda o culpado? Não, a culpa é do atraso endémico das elites dirigentes, do tribalismo primário, do sistema pseudo-socialista adoptado, que favorece a manutenção do poder por parte de uma pequena casta familiar e de amigos que nunca poderá ser desalojada sem ser pela força, ou por outro chefe, outro homem forte, como agora em Angola, e que poderá ser, afortunadamente, um pouco melhor do que o anterior para benefício do seu país. A resposta é não. 

Salazar poderia, em teoria, ter tentado uma abertura, mas esta teria sempre obstáculos pragmáticos de natureza quase intransponível. Apenas o suborno das escassas elites locais poderia ter resultado, mas essa não era a forma de governar de Salazar. Ao contrário de Roma, Salazar não comprava os seus inimigos com promessas para depois não lhes pagar. Eliminar o sistema repressivo era também contra a forma de ser do regime, fundado sobre os escombros da primeira república, onde a norma eram os assassinatos, as bombas, os quarenta e cinco governos em menos de 16 anos, um sistema que assassinou um presidente da república e um primeiro-ministro, um sistema desordenado, selvagem, perigoso. 

Sem um sistema ordenador nunca se teria conseguido manter um regime, apoiado por quase todos, como tinha sido a monarquia ou o sistema de Sidónio Paes, mas derrubado por meia dúzia de canalhas, como Afonso Costa, que armados e dispostos ao crime, à guerra civil, poderiam causar graves danos à Ditadura Nacional e ao Estado Novo que se seguiu. Sem um sistema ordenador voltar-se-ia ao caos dos anos da primeira república, num estádio inicial e, posteriormente, teria Salazar de enfrentar o perigo comunista, que lastrava como palha em França e Espanha. A Guerra Civil em Espanha e depois a Segunda Guerra Mundial impediram qualquer hipótese de abertura prematura. No pós-guerra temos a expansão bolchevique que torna Salazar receoso, e mais tarde já está demasiadamente avançado na idade para mudar. 

No momento em que se forma a OTAN (1949) ou nos anos seguintes teria sido o ponto de viragem ideal para uma abertura de regime, mas aí já era demasiado tarde para Salazar, e os comunistas não davam descanso ao regime, organizando greves e golpes que deixaram o estadista sempre em sobressalto. Tímido, o ditador não tinha suficiente confiança na sua popularidade para abrir o regime, nem sequer admitia essa abertura, e esse foi mesmo o seu erro mais gritante, um erro do qual nunca se apercebeu e que talvez seja anacrónico criticar hoje. ■ 

(Continua na próxima edição)