Paulo Rangel e Rui Rio, por favor entendam-se!

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Aparentemente, os dados estão lançados e teremos eleições legislativas no próximo mês de Janeiro. Como resultado poderemos ter dois cenários principais, um cenário altamente indesejável e outro desejável. Analisemos os dois:

1. Cenário indesejável – Será aquele em que o PS tenha mais votos do que o PSD, com ou sem maioria, para formar um governo minoritário, ou com o apoio parlamentar do PAN e, se viável, com o PCP e ou com o Bloco de Esquerda, numa nova versão da “geringonça”. Pessoalmente, considero esta situação um desastre para o país, sendo porventura preferível uma maioria absoluta do PS, que anule a influência na governação dos dois partidos da extrema-esquerda e responsabilize apenas o PS e António Costa pela solução política seguida até aqui e pelo previsível desastre da economia e das finanças no futuro.

Neste sentido é bom recordar que o PSD de Pedro Passos Coelho aceitou governar a seguir ao desastre do PS de José Sócrates e do pedido de ajuda externa, com o resultado de ainda hoje ser acusado por largos sectores da sociedade portuguesa pela austeridade que permitiu recuperar a credibilidade externa de Portugal. Ou seja, não está provado que a história não se repita uma segunda vez e o PSD volte a não viver os resultados da sua intervenção resultante dos desmandos do PS. 

2. Cenário desejável – Será o que resulte de uma maioria do PSD, se necessário com o apoio do CDS e do Partido Liberal, que permita uma maioria estável e sem a participação do Chega. Penso que esta solução é não apenas desejável, mas largamente possível se, num golpe de asa, Paulo Rangel e os seus apoiantes conseguirem, de imediato, a unidade com o PSD de Rui Rio, em que até um deles pode ser candidato a primeiro-ministro e o outro a vice-primeiro-ministro, num casamento de salvação nacional. Penso que havendo agora essa possibilidade, não será de perdoar a ambos que o PS seja o partido maioritário em Janeiro, na medida em que gastar cartuchos na previsível luta interna que se segue, colocará ambos, provavelmente, na oposição. Na solução que preconizo ambos cumpririam o desígnio de Sá Carneiro: “primeiro vem o país, só depois o partido, e em último lugar os nossos interesses individuais”.  

A realidade é que o PS e António Costa, apesar do desastre provocado pela “geringonça”, partem para esta eleição numa posição muito confortável. Vejamos: António Costa criou com notável perícia a ilusão de que não pretendia eleições; pode beneficiar da transferência de votos do PCP e do Bloco de Esquerda; continua no poder e a distribuir, ou a prometer distribuir, agora em nome do PS, todo o dinheiro e as benesses prometidas pela “geringonça”. Além disso, o previsível crescimento do Chega reduz a votação no centro direita, ou seja, a morte da “geringonça” está a ser largamente exagerada e minimiza a força dos interesses, tanto políticos como económicos, na política nacional.

Portugal precisa como de pão para a boca de um Governo de salvação nacional, composto por personalidades de reconhecida competência nas diversas áreas da governação, nomeadamente com vista ao crescimento económico, à democratização do regime político, à profunda reforma e modernização da Administração Pública, fazer crescer o investimento, nomeadamente estrangeiro, além das exportações e promover a revolução necessária na educação e na organização do Serviço Nacional de Saúde. O crescimento económico é essencial para tudo isso, nomeadamente para evitar mais uma crise da dívida que será fatal com a governação de António Costa.

Neste processo é essencial a qualidade e a experiência das pessoas escolhidas para governar, em que os líderes não tenham medo da sombra, tanto de ministros como dos críticos que existem e que, para o bem e para o mal, são a consciência de qualquer governação. Com António Costa no poder já vimos que a sua vontade e, porventura, a sua incapacidade para encontrar pessoas com qualidade, é por demais evidente. Mas isso é também um aviso para o PSD, não podemos continuar a aceitar no Governo de Portugal pessoas como Eduardo Cabrita, Matos Fernandes, Tiago Brandão Rodrigues, Francisca Van Dunem, Pedro Nuno Santos, Pedro Siza Vieira e João Galamba, que insultam os críticos em vez de avaliarem as críticas, mentem com naturalidade e distorcem as informações que prestam aos portugueses. Por exemplo, Siza Vieira acaba de comparar o crescimento económico deste ano com 2020, o da pandemia, nunca fazendo comparações com 2019 e julga o nosso crescimento económico com a média da União Europeia, influenciada pelo baixo crescimento dos grandes países muito à nossa frente e nunca com os países do Leste que pertencem ao nosso campeonato. De facto, estes governantes fizeram sua a missão de António Costa de mentir aos portugueses e de iludir a realidade. 

Por estas e por outras razões não basta ao PSD formar Governo, é essencial a completa rotura com a mediocridade que caracteriza o Governo criado por António Costa. Para já não falar na corrupção e nas confortáveis relações da grande família socialista com os negócios. Acredito que Rui Rio possa fazer essa rotura, como acredito que Paulo Rangel possa trazer para o Governo do PSD uma melhor análise de intervenção política. Razão porque a luta entre os dois é um enorme desperdício de energias e é porventura o que António Costa precisa para ganhar as próximas eleições.

Na história dos povos há momentos críticos em que surgem os homens e as soluções virtuosas de mudança. Outros em que isso não acontece, seja devido à mediocridade dos homens, seja devido a uma defeituosa leitura da realidade presente e das possibilidades futuras. O exemplo de Winston Churchill, em 1939, brilha sobre todos os exemplos do século XX, quando em Portugal os exemplos sucessivos de António Guterres, José Sócrates e António Costa parecem representar uma maldição nacional. Trata-se de uma maldição que pode perfeitamente ter continuidade.

Nada impede Rui Rio e Paulo Rangel de colocarem de lado as suas naturais ambições políticas para surpreenderem os militantes do PSD e o país com uma iniciativa de unidade que pode ter consequências virtuosas no nosso futuro. Por vezes na história dos povos basta um pequeno gesto, ou um exemplo virtuoso de grandeza de alma, para mudar a história. É disso que precisamos neste momento. ■