Enganados duas vezes

“Galamba vive do dinheiro dos contribuintes. Se tivesse trabalhado numa dessas empresas que dão lucro, decerto saberia que não se investe o muito dinheiro que não se tem”

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Um conhecido ditado americano do Texas, terra de petróleo e energia,  diz: “Se me enganares uma vez, a vergonha é para ti (por seres vigarista); mas se me enganares duas vezes, a vergonha é minha (por me deixar cair de novo no teu conto do vigário mesmo depois de já saber quem tu és)”. 

O secretário de Estado da Energia, João Galamba, vai gastar 7 mil milhões do nosso dinheiro na energia renovável da moda, o hidrogénio. Ora esta é uma fonte de energia ainda não comprovada em muitas áreas, apresentando muitos riscos de desenvolvimento e não tendo retorno garantido, ao ponto de o maior empresário de energias renováveis, Elon Musk, CEO da companhia Tesla dos carros eléctricos, a classificar como um investimento “incrivelmente estúpido”. Musk explica que as enormes dificuldades de extração do hidrogénio levam a ineficiências “terríveis” e perigos “inflamáveis”. 

Talvez devido aos riscos e incerteza dessa tecnologia, a gigante e riquíssima Alemanha, prudente no uso do dinheiro dos seus contribuintes, vai investir apenas 9 mil milhões no hidrogénio. ‘Per capita’, isso representa um gasto de apenas 100 euros de cada alemão no hidrogénio. Já os 7 mil milhões portugueses nos negócios do hidrogénio representam um gasto per capita 700% superior, com cada um de nós a gastar 700 euros nos negócios de hidrogénio de Galamba. 

Dado o risco da tecnologia, o retorno mais provável e lógico para os contribuintes é ser exatamente o mesmo que o dos negócios de Sócrates na energia renovável da moda de então, eólica: prejuízo enorme, com a energia em Portugal a continuar das mais caras da Europa por poder de paridade de compra. Relembremos que Sócrates lançou a carreira política de Galamba pondo-o no Parlamento em 2009.  Galamba durante muitos anos elogiou e tratou Sócrates como Deus inquestionado na terra, em todas as áreas incluindo a energética. 

Em 2011, no livro “Como os políticos enriquecem em Portugal”, que também poderia ter o subtítulo “Como os contribuintes empobrecem em Portugal”, o autor A.S. Azenha documentou que vários heróis  do secretário de Estado da Energia João Galamba, como António Vitorino, José Penedos ou António Mexia,  depois de virem para a política e se envolverem em negócios de energia, aumentaram os seus rendimentos anuais em 1.000% e o património pessoal em vários milhões de euros.  Isto enquanto o resto dos Portugueses foi ficando cada vez mais endividado, mais pobre e com a dívida pública sempre a aumentar. 

Galamba sempre elogiou ou nunca denunciou nem questionou estas figuras na energia, apesar de ser pago para questioná-las como deputado há inúmeras legislaturas. Agora executa um plano para as energias renováveis em tudo semelhante aos desses indivíduos, apenas substituindo a energia da moda no passado, eólicas, pela da moda actual, hidrogénio.

Por contraste, o autor destas linhas voluntária e civicamente questionou e denunciou o CEO da EDP Mexia, em 2013, no expresso. O texto escrito sobre energia no Verão de 2013 aplica-se infelizmente ao Verão de 2020: “A indústria produtiva definha porque temos a electricidade mais cara da OCDE. Por isso definha também o comércio e as nossas casas são, paradoxalmente, mais frias que na Finlândia e mais quentes que no Arizona. Lá onde a indústria prospera e os cidadãos podem pagar climatização, há mercado de electricidade a praticar, com risco, preços baratos. Cá há um cartel desregulado e sem risco a vender electricidade cada vez mais cara. Faz parte da cultura do Rendimento Máximo Garantido pelos favores do Estado e sacrifício dos contribuintes”. 

Muitos outros Portugueses qualificados têm denunciado as políticas de energia deste Executivo, incluindo um manifesto subscrito recentemente por 44 personalidades que Galamba insultou como “pró-Coreia do Norte” e “anti-planeta”. Galamba lamentou-se ainda que “engenheiros reputados não percebam” tudo o que ele, nada engenheiro, percebe de engenharia energética.

Recentemente, o professor catedrático do Instituto Superior Técnico e especialista em energia, Clemente Pedro Nunes, deu uma entrevista na SIC onde afirmou que a Estratégia Nacional para o Hidrogénio (EN-H2) do Governo iria agravar ainda mais o facto de Portugal pagar por megawatt à hora cerca de 1.000% mais que o preço médio de mercado internacional da energia.  Descreveu o negócio de Galamba como mais um pretexto para “o objetivo do Executivo de dar mais dinheiro aos do mesmo”.  Galamba, especialista em nada e muito menos em energia, insultou este professor de energia no Técnico como “aldrabão encartado”. 

De facto, ao contrário de cidadãos qualificados e voluntários que denunciam o risco excessivo da aposta no hidrogénio, os consultores do Governo, nacionais e internacionais, são obviamente bastante vocais e têm muito espaço nos jornais a elogiar esta suposta “excelente” aposta numa área tão “inovadora”. Tais consultores vão receber dinheiro do Estado e dos contribuintes, agora como no passado. 

Já para quem não tem conflitos de interesses, tudo parece indicar que um tão grande investimento de dinheiro numa tecnologia ainda não comprovada é demasiado arriscado. “Um salto no desconhecido”, como relatado por vários jornalistas na área da energia. 

Curiosamente, o próprio Galamba reconhece implicitamente que a tecnologia de hidrogénio não está desenvolvida suficientemente e tem muitos riscos de vir a ser concretizada, brincando que “não se pode comprar na Amazon”. Claro, na Amazon só se vendem produtos reais, que dão dinheiro a quem investiu neles; não se vendem ilusões de políticos portugueses. Se se vendessem, Jeff Bezos, o dono de Amazon, em vez de ser o homem mais rico do mundo era tão pobre como nós, os contribuintes portugueses, somos.  

Galamba vive do dinheiro dos contribuintes e nunca trabalhou numa empresa de capital de risco nem nunca fundou uma empresa financiada através de capital de risco. Se tivesse trabalhado numa dessas empresas que dão lucro, decerto saberia que perante projectos de alto risco, com apenas promessa de inovação, logo retornos meramente potenciais em vez de factuais, não se investe o muito dinheiro que não se tem. Mesmo quando se tem dinheiro, é necessário ter um portfólio de investimentos e diversificar, em vez de apostar tudo só numa área inovadora arriscada.    

Claro que Galamba nos conta a mesma linda estória de fadas que o seu criador para a política, Sócrates, contava: a limpar o planeta com dinheiro que a Europa nos vai dar ganharemos todos muito dinheiro e pouparemos na energia! Ou seja, o dinheiro vai sair dos bolsos dos outros e aparecer nos nossos como por magia de grandes magos políticos que percebem mais de empreendedorismo que magos tecnológicos.

Uma vez que a nossa dívida e preços de energia não param de aumentar, quem serão os “incrivelmente estúpidos” que ainda acreditam nisso em 2020, tal como em 2005? ■