Pagar diamantes para ter macacos

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Chegamos a uma conclusão bizarra se compararmos os salários internacionais de gestores em companhias de aviação lucrativas com os que os governantes pagam cá aos ruinosos amigos deles com o nosso dinheiro. 

Há um conhecido ditado da boa gestão internacional que diz “if you pay peanuts, you get monkeys” (se pagas amendoins, obténs macacos). Isto significa que se um empregador pagar salários muito baixos atrairá os piores empregados e terá prejuízo. O corolário é que se, pelo contrário, o empregador pagar salários muito altos obterá melhores e excelentes empregados, melhorando os resultados e tendo lucro. 

Os governantes portugueses na TAP e noutros negócios misturados com políticos, familiares deles e procuradores amigos, praticam o oposto destes princípios básicos da boa gestão internacional: para eles, se o governo pagar salários muito altos na gestão pública é para obter os gestores com os maus resultados do costume e continuar a ter ainda mais prejuízos. O provérbio-lema da gestão reinventada dos nossos ministros, única no mundo, poderia ser “If you pay diamonds, you get monkeys”.

Ponhamos de lado a questão se simplesmente deveríamos fechar a TAP, desinvestindo totalmente da aviação, como aliás fez o melhor e mais lucrativo investidor do mundo, Warren Buffett, durante 2020, para evitar prejuízos para os seus accionistas. Isto em sentido oposto do que fez, precisamente na mesma altura, o nosso ministro Pedro Nuno Santos, esbanjando na TAP para criar prejuízos infindáveis para os contribuintes, já que a TAP, gerida assim de forma tão sui generis, nunca terá lucro.

Foquemo-nos apenas noutra pergunta: já que nós, os acionistas-contribuintes, pagamos salários tão altos aos gestores da TAP e noutros cargos de nomeação governativa, será que com salários tão diamantinos não se arranjariam melhores e mais especializados gestores mundiais do que os atuais? 

Isto era perfeitamente possível, uma vez que os salários-base que o ministro das Infraestruturas oferece em 2021 aos gestores de topo da TAP são excelentes pelos melhores padrões salariais do mundo – apesar dos piores resultados do globo – rondando entre os 12.500 e 35.000 euros mensais. 

Uma vez que Portugal tem 13º e 14º mês, algo que outros países não têm, para compararmos internacionalmente temos de distribuir o valor adicional desses 2 meses pelos 12 meses, ganhando na realidade, em 2021, a equipa de gestão da TAP entre os 14.500 e os 40.000 euros mensais para o CEO.

Esses valores salariais são dos mais altos do mundo da aviação em 2021. Por exemplo, são mais altos que os da eficiente Ryanair, que em 2019 teve mil milhões de euros de lucro, em contraste com 100 milhões de prejuízo na ineficiente TAP.  Uma busca de ‘sites’ de recrutamento internacional e em jornais como o ‘Financial Times’, revela que os salários mensais base de equipas de gestão em aviação para 2021 rondam entre 7.500 euros para directores/vice-presidentes da Easy Jet e Rynair e 23.000 euros para o CEO da Ryanair.

Para 2021, Pedro Nuno Santos decidiu (nós pagamos) “premiar” com cerca de 40.000 euros mensais base o novo CEO da TAP (que já era lá COO). Isto é quase o dobro (!) do salário mensal base de Michel O’Leary, CEO da Ryanair que, ao contrário da TAP, tem vindo a reduzir o seu salário 50% nos últimos anos e ganhará em 2021 cerca de 23.000 euros.

O presidente do conselho de administração, Miguel Frasquilho, ex-deputado e (pasme-se) simultaneamente ex empregado de Ricardo Salgado do BES, sem especiais competências em aviação ou internacionais (nem na banca, uma vez que o BES faliu), recebe 14.500 euros por mês (contando 12º/13º mês) e na calada do período festivo natalício foi aumentado pelo governo mas recuou perante algo surreal.

Havendo tantos diretores e vice-presidentes disponíveis na aviação internacional pelo salário, ou menos, deste político Frasquilho, não seria muito melhor para nós, acionistas-contribuintes, substitui-lo e outros na TAP por profissionais com experiencia internacional de topo em lucros na aviação?  

Os bons gestores, capazes dos lucros que os actuais gestores da TAP não são capazes há cinco anos, ainda por cima vivem em países frios, chuvosos e cinzentos como a Irlanda e o Reino Unido, onde o custo de vida e os salários médios são bastante mais altos que em Portugal. Não seria até bastante fácil, com os salários diamantinos (ainda mais em relação aos salários médios cá) que pagamos na TAP, atrair esses gestores de topo da aviação internacional para Lisboa, Porto ou Faro (todos locais bem mais agradáveis para viver que Dublin), aqui onde o sol brilha muito e o custo de vida é muito mais baixo?  Por que carga de água estamos condenados a repetir os mesmos erros de sempre – ter políticos e seus preferidos sem experiencia em nada a gerir tudo com prejuízos imensos? 

É que, normalmente, quando se pagam diamantes mundiais salariais tão grandes como na TAP são, atraem-se os leões reis da selva que sabem dar aos seus acionistas muitos lucros, não provincianos desorientados e abocanhados por tais felinos internacionais.  

Não admira, pois, que a TAP tenha sido criticada, no passado mês de Dezembro, como um “estouro na cabeça dos contribuintes de 3 mil milhões de euros perdidos  para nada” pelo leão da aviação europeia,  Michael O’Leary, CEO da Ryanair. Este, em 2019, teve um salário-base anual de 1 milhão de euros, mas mereceu-os, pois isso é apenas 0.1% dos lucros de mil milhões de euros que a sua companhia teve então, servindo 142 milhões de passageiros, incluindo transportando mais emigrantes portugueses e trazendo mais turistas para Portugal do que a TAP. Mesmo com resultados tão excelentes, quando chegou a pandemia foi pressionado pelos accionistas para baixar o seu salário em metade, para cerca de 500 mil euros em 2020, e em 2021 ter nova redução salarial para os cerca de 250 mil euros (ou mais precisamente, 276 mil euros, que dão os já referidos 23.000 euros mensais base que são quase metade do valor mensal que o CEO da TAP recebe). 

Mesmo comparando o salário base anual de O’Leary antes da pandemia, em 2019, de 1 milhão de euros (que aliás era semelhante ao do CEO da Easy Jet Johan Lundgren, de cerca de 800.000 euros congelados desde 2019), uma vez que a Rynair teve os já referidos mil milhões de lucros em 2019 enquanto a TAP teve 100 milhões de prejuízo, isto significa que para merecer proporcionalmente o seu salário de metade de um milhão de euros que agora recebe, o CEO da TAP Ramiro Sequeira teria a obrigação dos nos apresentar, a nós accionistas-contribuintes, lucros no valor de metade da Ryanair,  ou seja, 500 milhões de euros anuais. Não nos parece que isso venha a acontecer, dados os 3 mil milhões de euros que estamos a enterrar na TAP só em 2020 e 2021. 

Perante o descalabro financeiro, Pedro Nuno Santos mente sempre que a TAP terá lucros daqui a uns anos, tal como nos mentiu, a 2 de Julho de 2020, que na TAP iria abrir um “concurso internacional” por “uma empresa de recrutamento especializada” para “procurar no mercado internacional gestores qualificados, experientes e com competência na aviação”.

Já estamos em 2021 e, mesmo pagando cá diamantes salariais mais atrativos que competidores muito mais bem-sucedidos, o ministro ainda não cumpriu a promessa de contratação internacional. Imaginemos o que aconteceria a Pedro Nuno Santos, sendo tão lento, numa empresa privada, a ter de responder perante accionistas furiosos com a má prestação da gerência e o dinheiro que isso lhes fazia perder a cada mês que passava sem se substituir causadores de prejuízos por gestores lucrativos. ■