A filosofia enquanto viagem, segundo José Marinho (II)

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E por isso diremos que esta não é apenas uma viagem sófica mas também, sobretudo, ontológica – porque só se cumprindo enquanto ser poderá ele cumprir o próprio “saber da verdade”, cais último da filosofia enquanto “viagem”. 

Nesse estádio, contudo, a filosofia não é já filosofia mas sim “metafísica” – conforme a distinção por si proposta, sobretudo na sua inacabada obra Significado e Valor da Metafísica. Daí a sua definição de filosofia como “propedêutica da metafísica ou metafísica inconsciente de si”, daí, inversamente, a sua definição de metafísica como “filosofia no seu pleno sentido”, como “conhecimento da verdade que é essencialmente independente da apreensão que o homem faz dela, do bem independentemente da sua humana realização”, daí ainda, a título de exemplo, estas suas palavras: “A filosofia é propedêutica do conhecimento e a metafísica conhecimento, a filosofia é procura da verdade e a metafísica sua concepção e expressão.”; “…conhecer o que na verdade é, independentemente da divergência entre o que está neste ou naquele, o que está aqui ou ali, o que foi, o que será e o que está sendo. Este propósito é o da metafísica.”. Na medida em que, contudo, a metafísica visa “não só e apenas o que está para além do físico, mas antes e primordialmente o que lhe é íntimo e nele se supõe”, ela acaba por se interessar em “saber o que é o homem não só enquanto espírito, mas enquanto existência também”.

Noutras passagens, porém, defende José Marinho que há ainda algo que, em última instância, supera a metafísica. Eis o que designa por “santa-sagesse” – nas suas palavras, constitui-se esta como a “forma suprema da metafísica”, dado que não se cumpre apenas como o “conhecimento do absoluto”, mas como o próprio “conhecimento absoluto”. Tal a subtil, a abissal diferença que Marinho, de forma tão sucinta quanto suficiente, esclareceu quando, numa carta a Álvaro Ribeiro, afirmou que “o génio compreende e o santo é”. 

Eis, com efeito, toda a diferença entre o “conhecimento do absoluto” e o “conhecimento absoluto” – enquanto que no primeiro há ainda lugar para a distinção entre sujeito e objecto, ainda que este seja o próprio absoluto, no segundo não há já lugar para essa distinção, na medida em que aí o sujeito é o próprio objecto. 

Daí ainda, aliás, para Marinho, o nosso destino, mais amplamente, o destino, o fim, de toda a existência: “Não está esse fim [de toda a existência] em ser como Deus, ou um deus entre deuses, mas em ser o próprio Deus. Pois só Deus é verdade, e, da mesma forma que o olho se torna visão e a visão luz, assim o pensamento se torna conhecimento e o conhecimento se torna plenamente a verdade que era para ele de início um objecto posto fora, para além.”. ■

* Para o Colóquio “O Sagrado e o Profano: Caminhos de Santiago” (23 de Julho, Faculdade de Letras da Universidade do Porto).