RENATO EPIFÂNIO

Comecemos, então, pelo conceito de cultura de Fidelino de Figueiredo – nas suas palavras: “Cultura é o conjunto de ideais condutores, o sistema de juízos e valores, de opções e preferências, que orientam uma época; é a imagem que cada homem civilizado se forma do mundo e do passado da sua espécie, e o plano de actuação futura que se reserva” (“Menoridade da Inteligência”, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933, pp. 50-51).

Ainda segundo Fidelino de Figueiredo, esse “conjunto de ideias condutores”, que se consubstancia, geração após geração, num “plano de actuação futura”, não se faz necessariamente, nem sequer idealmente, por renegação do passado, antes no respeito da tradição, pelo menos enquanto esta é, nas suas palavras, “uma força viva”, “sangue quente a circular no organismo social, continuidade profunda e involuntária, como o laço familiar, e não doutrina artificiosamente reconstituída pela nostalgia estática ou pela renúncia descoroçoada” (idem, p. 115)

Eis, ainda segundo Fidelino de Figueiredo, a tarefa das elites culturais de qualquer povo, que se devem reger por essa lógica criadora – ou criacionista, como diria Leonardo Coimbra –, senão mesmo por uma lógica de heroísmo – ainda nas suas palavras: “Por heroísmo entendo eu, não só a sua forma marcial, mas todas as potencialidades humanas levadas ao máximo, o predomínio dos melhores, a reconquista dos direitos da inteligência, da força moral, do ideal interior, para fazer impor e triunfar uma ideia: a capacidade de curvar, obediente, a argila humana às dedadas do génio” (“Torre de Babel”, Empresa Literária Fluminense, 1925, p. 172).

Entrevemos aqui toda a importância dada à cultura, na sua prevalência sobre todos os demais planos – nomeadamente, os planos social, económico e político. Daí também, enfim, o seu conceito de “imagens-força” (cf., por exemplo, “Interpretações”, Editorial Nobel, 1944, p. 30). Correspondem estas às “visões do mundo” que, historicamente, se tornaram hegemónicas ao longo dos séculos – desde a visão mítica do mundo, passando pela visão clássica (de matriz aristotélica), até à visão do Renascimento e da Contemporaneidade (onde, para Fidelino de Figueiredo, a figura de Einstein, e da sua física relativista, avulta). Pois bem – perguntamos: não será tempo de se abrir uma nova visão do mundo, uma visão não diremos “neo-existencialista” mas, de forma assumida e descomplexada, “neo-humanista”?

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