António Telmo, uma década depois (III)

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Como é sabido, e como quisemos salientar na obra “O Portugal de António Telmo” (Guimarães Ed.), que organizámos conjuntamente com o Rodrigo Sobral Cunha e o Pedro Sinde, em colaboração estreita com o Pedro Martins e algumas outras pessoas, o amor a Portugal por parte de António Telmo era, desde logo, um amor pela nossa História e pela nossa Língua. Um amor que era, antes de tudo o mais, um saber, um conhecimento – porque, como já o sabemos desde pelo menos Platão, só se pode amar verdadeiramente o que realmente se conhece (sendo a inversa não menos certa, conforme observação de Joaquim Domingues: só verdadeiramente se conhece o que realmente se ama). Daí alguns dos títulos mais emblemáticos da obra de António Telmo – referindo apenas dois deles: Gramática Secreta da Língua Portuguesa e História Secreta de Portugal.

De tal modo assim foi que talvez nenhum outro filósofo pudesse, com mais justiça, fazer suas as célebres palavras de Fernando Pessoa, escritas pela mão do seu semi-heterónimo Bernando Soares, no Livro do Desassossego: “Minha pátria é a língua portuguesa”. E isso não partindo – importa aqui sublinhá-lo – das mesmas premissas, que aqui recordamos: “Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”

Com efeito, não imaginamos António Telmo a dizer (ou a pensar – o que não faz grande diferença, pois que António Telmo, se não dizia tudo o que pensava, nada dizia que não pensasse, também aqui seguindo o exemplo de Agostinho da Silva, de quem, como sabemos, foi muito próximo: o exemplo de adequação entre pensar, dizer e agir): “Não tenho sentimento nenhum politico ou social (…). Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente.”. Mas já o imaginamos a afirmar: “odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse”. Pois que esse “ódio verdadeiro” seria apenas o reverso do seu real amor por Portugal, pela Língua Portuguesa. ■

* Para a Revista NOVA ÁGUIA nº 26, que irá evocar António Telmo, dez anos após o seu falecimento. Caso queira participar, deverá enviar-nos o seu texto até final de Junho.