António Telmo, uma década depois (IV)

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Para terminar, citemos o próprio António Telmo, num texto coligido na obra que há pouco referimos: “Quando só houver Europa, depois de abolidas as fronteiras e, sobretudo, depois da unificação da moeda, terá de pôr-se o problema da homogeneização das línguas, porque, dada a prometida livre circulação das pessoas e do trabalho, se todas mantiverem os mesmos hábitos linguísticos, será o caos da comunicação social. Não chegará a escolha do inglês, do francês ou do alemão para os actos oficiais. Será necessário que todos, desde a Rússia até Portugal, falem a mesma língua. O espírito que congrega os homens serve-se de dois agentes: o dinheiro e a palavra, que formam o seu duplo aspecto tenebroso e luminoso./ No século passado, a babilónica inteligência secreta, que trabalha para a homogeneização da Humanidade, não teve, então, a astúcia de principiar pelo económico ou, se teve, guardou-a para melhor oportunidade. Começou logo pelo fim, pela unificação linguística. Mas o esperanto foi um fracasso. Se os dois extremos da cadeia são o dinheiro e a palavra, antes de tentar pôr os povos a falar uma única língua será necessário dissolvê-los, desligando as pessoas da consciência singular de pertencerem a uma Pátria.” (“O génio da língua portuguesa”, in ibidem, p. 181).

Uma vez ouvi alguém dizer que não apreciava António Telmo porque ele era “demasiado abstracto”, pouco ou nada dizendo sobre a “realidade concreta”. Face a palavras como estas que citei, nada há a acrescentar – pois que dificilmente se encontrará um diagnóstico tão certeiro sobre a “realidade concreta” em que todos vivemos. A não ser, talvez, acrescentar o que escreveu Orlando Vitorino, num texto também coligido n’O Portugal de António Telmo: “perante a demissão dos ‘grandes organismos espirituais de ligação do Céu com a Terra’ (…) a cada um de nós ‘resta apenas uma saída: a de ficar só, completamente só em si mesmo e de, nessa solidão, se manter firme, não cedendo um ponto’. Acontece, porém, que, mais radicados nós nela do que nos citados ‘grandes organismos espirituais’ e mais terrena e erradicável do que eles, ‘há a Pátria’. E o autor [António Telmo] demonstra: ‘Não é por acaso que se nasce português, e misteriosas são as leis das afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?’. É, deste modo, próprio da natureza e da existência humana de cada um, pertencer a uma Pátria.” (“Sobre a História Secreta de Portugal”, in ibidem, p. 15). Ao contrário de António Telmo, não acreditamos – ou, pelo menos, não acreditamos tanto – que não seja por acaso que se nasce português. Mas, já que, por acaso ou não, nascemos portugueses, sejamos dignos disso. Isso já será bastante. ■

* Para a Revista NOVA ÁGUIA nº 26, que irá evocar António Telmo, dez anos após o seu falecimento. Caso queira participar, deverá enviar-nos o seu texto até final de Junho.