Do Saudosismo ao Sebastianismo (II)

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Ainda assim, do que dela chegou até nós, é possível concluir que, com a sua Nova Interpretação do Sebastianismo, José Marinho procurou sobretudo, como ele próprio escreveu na sua introdução à obra, “uma antropologia renovada, ou seja, uma nova visão compreensiva do homem, dos seus caminhos e dos seus fins”. 

E isto porque, no seu entender, D. Sebastião, a própria “Ilha do Encoberto”, simboliza, sobretudo, o nosso “ser autêntico”, o próprio “espírito” – nas suas lapidares palavras, “o espírito não é, no homem, um ser que se acrescenta ao ser, mas sim a maneira como o ser do homem eminentemente é”. Daí que pelo “regresso de D. Sebastião” não se simbolize senão o regresso do homem ao seu “ser autêntico”, no seu “trânsito do viver caótico ao viver harmonioso”, na sua “passagem do reino ilusório da necessidade ao da liberdade”. Daí, de resto, todo o sentido da “viagem”, em José Marinho, em particular, na sua Teoria do Ser da Verdade: é por ela que seremos o que na verdade somos…

A própria filosofia constitui-se para o autor da Nova Interpretação do Sebastianismo como um caminho – como o “caminho fora do claro ver meridiano”, como o “caminho da sombra” –, como uma viagem – como a “viagem que o amor da verdade determina no homem que se não quer iludir”, como a “viagem entre o Nada e a plenitude”, como a “grande viagem do espírito”. Ainda nas palavras do próprio autor da Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, é essa a “viagem autêntica”, “a viagem em profundidade, a viagem do espírito”: “…a viagem autêntica é a viagem em profundidade, a viagem do espírito, o proceder, o seguir do espírito para a própria intimidade e para o ser íntimo. Não é a viagem com que se apreende e forma o exterior, mas o interior.”.

E por isso definiu ainda, José Marinho, a sua Teoria do Ser e da Verdade como essa “longa viagem, mas viagem insituada”, como essa “imensa ou intérmina viagem”, como essa “subtil viagem, não apenas da vida inteira mas de cada instante do viver”, como essa “mais insólita viagem”, “na qual nasce o próprio viajante”, como essa “simbólica viagem pelas quase desertas regiões onde não há estradas, nem sequer veredas abertas, que de novo se não cerrem na densa floresta do ser atrás do solitário viandante”, como essa “viagem pelo mar imenso do ser que se não sente nem se vê, nem é já e ainda não para nenhum ser”, como essa “viagem entre o espírito que tudo cinde e tudo une, entre todo o demoníaco e todo o divino”. Como essa viagem, em suma, da Saudade. ■