Eduardo Lourenço como mito cultural (II)

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Ainda assim, não deixou o autor d’O Labirinto da Saudade de antever nesse nosso alegado “défice” um alcance outro, capaz inclusivamente de fazer com que Portugal se reconcilie, enfim, consigo próprio – nas suas palavras: “À dissolução teórica do Sentido, como ingénuos e impávidos camponeses do Danúbio podemos opor – se não uma certeza à antiga, inalcançável e vã nos tempos que nos cabem – a exigência de um Sentido e, em particular de um sentido ético que nem sucesso económico, nem performance científica, nem sofisticação pensante podem substituir. Não é em vão que a Península é a pátria de Séneca. A Europa não inventou um tipo de humanidade mais exemplar que D. Quixote, loucura cristã para tempos regidos pela regra de ouro da objectividade e da legalidade.”. 

Acrescentando, num registo quase épico, senão mesmo (passe a ironia…) messiânico: “É quixotescamente que devemos viver a Europa e desejar que a Europa viva. Com a mesma ironia calma com que Caeiro se vangloriava de oferecer o Universo ao Universo, nós, primeiros exilados da Europa e seus medianeiros da universalidade com a sua marca indelével, bem podemos trazer a nossa Europa à Europa. E dessa maneira reconciliarmo-nos, enfim, connosco próprios.”. 

Na hora da sua partida, reconciliemo-nos, também nós, com o nosso maior “mito cultural” das últimas décadas. Até sempre, Eduardo. Ainda que nem sempre de acordo, continuaremos a lê-lo.

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A colaboração de Eduardo Lourenço na NOVA ÁGUIA não foi particularmente extensa, mas foi cirurgicamente marcante. Assim, no nº 15, da nossa Revista, em que assinalámos o centenário da Revista “Orpheu”, foi de Eduardo Lourenço o ensaio de abertura: “Orfeu ou a Poesia como Realidade”. Evocação que se estendeu ao número seguinte, com a transcrição da sua Conferência de Encerramento do “Congresso 100 – Orpheu”, em que a NOVA ÁGUIA esteve igualmente envolvida.

Nos números 18º e 20º da Revista, destacamos ainda dois ensaios seus – sobre Agostinho da Silva e António Vieira, respectivamente. Sendo que o texto mais marcante foi, decerto, uma extensa entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares (publicada no nº 16), depois editada em Livro, com a chancela do MIL: Movimento Internacional Lusófono (“Eduardo Lourenço em roda livre”, MIL/ DG Edições, 2016, 73 páginas).

Na hora da sua partida, anunciamos que no primeiro número de 2021 iremos ter uma secção em sua Homenagem, que não será, de resto, a primeira que a NOVA ÁGUIA lhe presta – Eduardo Lourenço recebeu, como estamos ainda todos lembrados, o Prémio Vida e Obra do 1º Festival Literário TABULA RASA. Caso queira contribuir para esta Homenagem, deverá enviar-nos o seu texto até final do presente mês de Dezembro. Fica o convite, com votos de um Bom Natal a todos os cidadãos lusófonos… ■