Nos oitenta anos de Arnaldo de Pinho (III)

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Como salienta ainda Arnaldo de Pinho, citando um outro distinto discípulo de Leonardo Coimbra – Álvaro Ribeiro –, uma das suas motivações maiores foi a de “dotar a cultura portuguesa de um ensino superior de Filosofia” (p. 152). Daí, em suma, toda a importância da primeira Faculdade de Letras do Porto – ainda nas palavras de Álvaro Ribeiro: “o curso superior de Filosofia pensado por Leonardo Coimbra para instituir nas faculdades de Letras, realizaria, a breve ou longo prazo, uma reforma total da Universidade portuguesa” (id.). Escusado será aqui constatar que essa “reforma total da Universidade portuguesa” está ainda por se cumprir. Todos o sabemos… 

Arnaldo de Pinho, na conclusão do seu texto, salienta que o pensamento leonardino é essencialmente uma “Filosofia da Liberdade” (p. 154). O problema, como também todos nós sabemos, é que a Liberdade de que Leonardo fala não é de todo a mais praticada – na sua lapidar definição: “a liberdade é o poder do espírito criar beleza” (in Águia, nº 2, 1912).

Eis, ainda segundo José Marinho, como ele próprio defendeu na sua última obra, já publicada postumamente, um ano após a sua morte (Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Lello, 1976) o que os auto-proclamados “modernos” igualmente esqueceram, negando a liberdade humana, ou afirmando-a apenas na sua forma mais extrínseca, mais superficial, ou seja, afirmando-a apenas enquanto “liberdade do homem”, e não enquanto “liberdade no homem”, a forma de liberdade “mais autenticamente filosófica (…), a mais difícil, por consequência, de assumir” (p. 107), acrescentando: “Não, não se trata de saber se o homem é livre. Este foi o problema tipicamente moderno, europeu, do humanismo pressuroso e simplificador. Não, não se trata de saber se o homem é livre, mas sim, e como primeira instância problemática, de saber em que medida a liberdade se vive e se pensa, nele e para ele. Trata-se, sim, de saber se há liberdade no homem. Como compreender de outro modo o que chamamos espírito, como compreender o pensamento em sua autêntica fonte e no mais autêntico do seu processo?” (p. 156). 

Para uma “reforma total da Universidade portuguesa”, mais, muito mais do que isso, para uma “reforma total” da nossa própria vida, individual e colectivamente considerada – enquanto Povo, enquanto Pátria… –, eis, a nosso ver, a Liberdade que mais importa pensar, a Liberdade que mais importa cumprir. ■

Agenda MIL – 15 de Junho, 18h, no Instituto Pernambuco (Porto): “Ariano Suassuna: uma certa visão do Brasil”; Apresentação da Revista NOVA ÁGUIA nº 18 (em Homenagem a Ariano Suassuna).