Nostalgia pelos anos oitenta?

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Compreendendo perfeitamente a exasperação que a “persona” de Trump causava em muitos norte-americanos, mesmo entre os mais convictos republicanos (caso paradigmático de Clint Estwood, que cedo antecipou que não iria apoiar o candidato oficial do seu partido), sempre tivemos a intuição de que alguns eixos da sua política externa iriam entretanto ser reavaliados menos negativamente, mesmo entre os mais militantes opositores de Donald Trump.

Não esperávamos, porém, que a realidade viesse a confirmar tão imediatamente essa intuição, apesar de todos os “filtros” mediáticos, que até se compreendem – quando (quase) todos os ‘Media’, nos Estados Unidos da América e em (quase) todo o mundo, em particular na Europa, fizeram uma campanha activa anti-Trump na última Eleições Presidenciais, é compreensível que se abstenham agora de criticar Joe Biden.

O que se passou recentemente é porém indiciador de um pelo menos aparente desnorte desta nova política externa norte-americana. Nunca no passado um Presidente norte-americano, como agora Biden, se atreveu publicamente a qualificar como “assassino” o seu homólogo russo – no caso, Vladimir Putin. Mesmo Josef Stalin, aquele que mereceria com menor hesitação esse epíteto (escusado será recordar aqui o número das suas vítimas…), jamais foi assim publicamente qualificado por Franklin Roosevelt ou por qualquer outro Presidente norte-americano seu contemporâneo.

Sendo que aqui o que mais surpreende é o absoluto anacronismo da posição norte-americana. Até ao final dos anos oitenta (leia-se: até à queda do Muro de Berlim), fazia sentido (na perspectiva norte-americana, claro está) eleger a Rússia (na altura, a União Soviética) como o principal inimigo geo-estratégico. Por isso, de resto, nesses tempos, vários Presidentes norte-americanos procuraram ter a melhor relação diplomática possível com a China (inclusivamente Richard Nixon e Ronald Reagan), procurando assim enfraquecer o seu rival maior.

No século XXI, quando a China passou a ser, de longe, o maior rival dos Estados Unidos da América, é absolutamente anacrónica esta estratégia de hostilizar a Rússia. Dirão alguns que isso se deve a interesses económicos da família de Biden na Ucrânia. Não acreditamos porém nisso, tal como não acreditámos em suspeitas similares sobre a família de Trump em relação à Rússia. Trump, por uma vez na vida, era a esse respeito muito mais lúcido. Percebeu, perfeitamente, que a Rússia já não era um rival real dos Estados Unidos da América e que poderia até ser um aliado na disputa pela hegemonia global com a China. Biden, porém, e grande parte do Partido Democrata, parece ainda viver nos anos oitenta… ■