O excentrismo filosófico-político de Raul Leal (II)

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A este respeito, atentemos, mais detidamente, num seu outro texto, intitulado “Domínio das Elites”, datado de Maio de 1961, um texto tão breve quanto elucidativo da “síntese” – ou da “fusão absoluta integral” – almejada por Raul Leal no plano filosófico-político. Neste, começa (à maneira, dir-se-ia, de Platão…) por defender que “a verdadeira igualdade consiste em se tratar desigualmente as pessoas colocadas em situações ‘naturalmente’ desiguais”. Como logo se seguida acrescenta: “Assim, os que são, por ‘natureza’, melhores nas ciências, nas artes, na política, na diplomacia, nas técnicas, no pensamento filosófico ou ético, enfim, na poesia, devem, segundo esse justo critério, ter na vida e na sociedade uma situação superior à dos que são menos dotados”.

Daí, como logo de seguida expressa, o seu assumido e eloquente elitismo: “…sustento a necessidade imperativa de se dar o domínio financeiro e social às várias elites ‘naturais’ da sociedade nos campos em que são mais capazes, domínio que deverá crescer com o desenvolvimento progressivo das aptidões pessoais dos indivíduos e colectividades./ São, pois, as elites, as ‘verdadeiras’ elites — não as artificiosamente fabricadas — que devem dominar duma forma ou de outra forma, em harmonia com as suas vocações, aliás possivelmente educáveis, mais do que se julga, e só esse domínio aristocratizante é racionalmente justo, equitativo (…)”.

Face a estas palavras, fará sentido perguntar se Raul Leal era afinal “democrata” ou “anti-democrata”? Decerto, ele considerava que sim: que era um “democrata”, por mais que formalmente “anti-democratas” sejam os seus argumentos. Como de seguida insiste, a respeito do seu conceito de “democracia aristocratizadora”: “Esse domínio dos ‘naturalmente’ melhores em qualquer campo da actividade humana é que, sem dúvida, se justifica poderosamente, e só ele será o legítimo fundamento das democracias que, quando pretensamente igualitárias, são uma autêntica aberração ‘contra natura’ (…) caso contrário, a injustiça será flagrante, passando os medíocres e inferiores a ter tanto poder como os superiores, como as elites, o que, decerto, não é democraticamente equitativo, não havendo o verdadeiro domínio do povo”.

Este – o “verdadeiro domínio do povo” – só existe, como logo de seguida aduz, “quando é distribuído pelos indivíduos que constituem esse povo, proporcionalmente ao seu valor pessoal, manifestado no seu trabalho e nas suas actividades. De outro modo, dominando os medíocres e inferiores tanto como os manifestamente superiores, estes não podem valorizar a sua acção convenientemente, visto ser então prejudicada pelo concorrente domínio imerecido dos outros, com evidente prejuízo da acção dominadora de todo o povo em geral que carece mais, evidentemente, para dominar, de acções superiores, amplamente expressas, do que das que são inferiores ou medíocres por natureza”. Em suma, se Raul Leal nos parece aduzir uma série de argumentos formalmente anti-democratas, tudo isso é em prol – reitera ele, convictamente – do “verdadeiro domínio do povo”. ■

1 de Outubro, 18h, última sessão de apresentação da NOVA ÁGUIA 27 + Colecção “Mestres da Língua Portuguesa”: Encontro de Alternativas (Quinta da Ribafria, Sintra).