O excentrismo filosófico-político de Raul Leal (III)

0
118

Após uma série de outras considerações, de cariz mais circunstancial, que em nada infirmam, no essencial, a posição filosófico-política descrita, termina Raul Leal esse seu artigo desta forma: “É isso que o moço e inexperiente presidente Kennedy não quer ou não consegue ver…”. O mesmo “Kennedy” a quem – saliente-se – já havia endereçado um “Carta Aberta”, onde, remetendo para a sua obra Sindicalismo Personalista: Plano de Salvação do Mundo (1960), expressa uma “ardente apologia dos norte-americanos, considerando-os os precursores da minha teoria psico-social e psicoética que é a fusão integral, absoluta, do individualismo, do socialismo e do corporativismo fascista, levados ao seu extremo”, tudo isto perante, ainda nas suas palavras, “o colosso moscovita, ferozmente despótico, despersonalista e ateu”, assim retomando um outro artigo seu, ainda dos ano 20, intitulado “A criação do futuro: a organização bolchevista pelo fascismo através da acção norte-americana e sob o regime de uma monarquia libertária”.

Tudo isto nos pode parecer demasiado excêntrico – e de facto é. Mas o que está aqui desde logo em causa é, uma vez mais, o clássico abismo entre a teoria e a prática – que, pelo menos deste Platão, ensombra toda a filosofia política… Na teoria, tudo ou quase tudo pode fazer sentido – mesmo as posições mais excêntricas de Raul Leal. Na passagem para a prática há, porém, sempre ou quase sempre, um abismo que leva à desilusão, quando não mesmo à exasperação… A esse respeito, atentemos num outro texto seu, intitulado “O sentido esotérico da história”, onde, numa óbvia alusão a António de Oliveira Salazar, escreveu que “Portugal ainda Vive e guiado por um Homem, por um Predestinado cujo aparecimento eu pressagiei outrora quando, num artigo de jornal escrevi que após a reabilitadora Acção do Exército Libertador realmente surgiria decerto Alguém que progressivamente prepararia a Redenção da Pátria Portuguesa”.

Fatalmente, dir-se-ia, também esse entusiasmo oscilou no tempo. Numa outra Carta que escreveu – precisamente a António de Oliveira Salazar – não esconde a sua decepção, falando até do “eclectismo comezinho de V. Ex.ª”: “É nesta ordem de ideias que o eclectismo comezinho de V. Ex.ª jamais poderia compreender o elevadíssimo alcance das minhas concepções profundamente construtivas e nunca improvisadas nem tão-pouco fantasias – sendo certo que todo o meu idealismo progressivamente espiritualizador tem uma base solidamente realista – as quais criarão o futuro, sublimando a Vida e engrandecendo a Humanidade”. Apesar dos seus oscilantes mas recorrentes elogios – sobretudo justificados pela posição do Estado Novo na defesa do Ultramar –, a prática política de Salazar teria que acabar sempre por parecer a Raul Leal de um “eclectismo comezinho”. Salazar, de facto, numa teorizou nem, muito menos, praticou uma “fusão absoluta integral do individualismo, socialismo e corporativismo fascista levados ao seu extremo infinitizador”. Resta saber o que poderia ser isso na prática. Nem Raul Leal – suspeitamos – o saberia. ■

Agenda MIL: 13 de Outubro, 11h, na Universidade de Aveiro: Conferência “Portugal no Oriente”.