Fixação positiva na alma da raça vista de Elvas

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Não foi um acidente histórico a elevação do Brasil à condição de Reino Unido, em 1815. Nem um despropósito a ideia de D. João VI de, conforme o evoluir da política europeia, fixar em definitivo a capital do Reino no Rio de Janeiro. 

A ligação cultural e social de forma integrada entre as duas sociedades nada tem com a ocorrida nos demais países de colonização e integração em Portugal. Influíram diversos factores, inclusive de natureza económica. 

O luso-tropicalismo, tão bem definido por Gilberto Freyre, foi facilitado, pois o Brasil não só recebeu muitos portugueses, como a miscigenação com os africanos, e até mesmo índios, se deu naturalmente. No mais, desde logo aportaram europeus de outras origens, viajantes que acabavam ficando na terra. 

No século XIX, já independente, o Brasil passou a receber imigrantes de todo mundo. D. Pedro II, que tinha interesse e apreço pelo povo judeu, numa de suas viagens à Europa, acertou com os barões Rothschild e Ulrich a vinda de judeus para o Brasil. Esta primeira leva foi para o Rio Grande do Sul, onde foram lançadas as bases da aristocracia judaica no Brasil. Já no final do século, vieram os italianos e espanhóis, mais tarde os libaneses. São Paulo chegou a ser a segunda cidade com maior população libanesa-cristã. 

Antes da guerra vieram ainda polacos e, entre 30 e 45, muitos judeus, entre os quais hoje alguns dos mais importantes empresários do país. O papel e celulose com o Klabin-Lafer, o terceiro banco, Safra, a siderúrgica e cimentos com Steinbruch. Sílvio Santos, da rede SBT, e os Sirotsky, no Sul, são relevantes nos “media”. O comércio tem a marca judaica, assim como a medicina. O Albert Einstein é um dos cinco mais importantes hospitais do Brasil e do mundo. 

Agora, os historiadores e escritores voltam-se para uma interessante safra de livros, incluindo a literatura dos dois países e os seus estudos. Não temos nas livrarias apenas os clássicos populares, como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco. Os novos estão todos presentes. E alguns estudos começam a ser referência nos meios académicos. 

Um livro que, dez anos depois de lançado em Portugal, despertou a curiosidade e tem sido observado pelos historiadores é o excelente “A Cidade do Homem”, de Amadeu Lopes Sabino, que romanceou, sem objetivos historiográficos como assinala, o processo da Inconfidência, na memória e exaltação de António Dinis Cruz e Silva, o português que foi o principal árbitro do processo da Inconfidência. Dinis, que era poeta, passou pela Elvas do autor e viveu mais de 20 anos no Brasil e a pesquisa profunda de Amadeu mostra como se integrou com os maiores intelectuais, muitos envolvidos na Inconfidência, como Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto e o consagrado Tomás António Gonzaga. No Brasil da época, a elite passava por Coimbra. E Ouro Preto, capital do ouro e da província de Minas Gerais, era o centro cultural, artístico e político. Alguém, na ocasião, a definiu como “a alma do Brasil”. 

Curioso como um dedicado filho de Elvas, envolve-se completamente com o Brasil do final do século XVIII e realiza uma obra de tal dimensão, que começa a ser referência nos meios académicos brasileiros. O livro, da Sextante, não é romance histórico, mas tem base naqueles homens de inteligência da época. E possui a inspiração regional portuguesa, pois o personagem central marcou presença na cidade, que era colada na Olivença perdida, mas sempre lembrada. Estudou em Coimbra e foi relevante no Brasil. 

Amadeu, de intensa vida intelectual e política em Portugal, ligou-se muito ao Brasil, onde viveu e se casou com uma ilustre professora da Universidade do Paraná. Com esse livro abriu as portas para o estudo moderno, leve, da vida nos dois lados do Atlântico, mas parecendo a mesma sociedade, como se não houvesse um oceano a separá-las. 

Lendo Amadeu e sua grande obra temos pena que Gilberto Freyre nos tenha deixado antes e não pôde ver esses traços que confirmam o luso-tropicalismo como uma realidade, a despeito da indiferença dos governantes, mas com base na cultura e no sentimento de um povo uno que, mais unido, pode ser mais relevante no mundo que vivemos. ■