Paradoxos da Democracia no século XXI

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Para o Carlos Magalhães, autor de “O Triângulo da Democracia”

Questionar a pertinência da Democracia no século XXI poderá parecer um exercício meramente ocioso – e em grande medida é, pelo menos no Ocidente. É que, glosando Ortega y Gasset, também os modelos políticos são eles e a sua circunstância. Ora, na nossa “circunstância” – histórica e geográfica – a Democracia, tal como no Ocidente a entendemos e praticamos, tornou-se, na prática, no único sistema exequível.

Nem sempre, como sabemos, assim foi. Quem, como nós, se formou em Filosofia, sabe, particularmente, que nem sempre, de todo, assim foi… Ainda hoje, uma das obras fundadoras da tradição filosófica no Ocidente é a Politeia (ou República), de Platão, um manifesto anti-democrático com argumentos que, no plano teórico, são, ainda hoje, não muito facilmente rebatíveis, para dizer o mínimo.

No essencial, o que Platão defendeu – e, na sua esteira, muitos outros filósofos, de Aristóteles a Nietzsche – foi o seguinte: as maiorias tendem a ser ignorantes; logo, um governo assente no apoio da maioria da população será sempre tendencialmente mau. Politicamente, um argumento como este é, nos dias de hoje, mais do que herético. Mas, paradoxalmente, ele subsiste em muitas outras áreas – há mesmo muitas pessoas ditas de “esquerda”, supostamente mais “democráticas”, que o usam para desqualificar os gostos maioritários na área da cultura: do cinema às outras (seis) artes, exemplos não faltam.

Historicamente, essa sempre foi uma atitude mais característica de pessoas ditas de “direita”. Daí o seu “elitismo”, nalguns casos assumido sem qualquer reserva. Da cultura à política, só as “elites”, e não as “massas”, é que deveriam decidir o que era realmente bom. No plano político, tal atitude consubstanciava-se numa desconfiança, quando não numa recusa, da Democracia. Paradoxalmente, há hoje muitas críticas ao dito “populismo” que recuperam esses argumentos. Veja-se, por exemplo, o que em geral se aduz contra os “referendos”.

Pela nossa parte, também nos sentimos num paradoxo. Por um lado, e ao contrário do que se tornou “vox populi”, consideramos que o sistema educativo, base sistémica da cidadania, está, em todos os seus níveis, cada vez pior – no ensino superior, em particular, isso parece-nos inequívoco, o que se deve, entre outros factores, à perda progressiva de hábitos de leitura. Hoje, em qualquer trabalho universitário, já quase não se citam livros, mas sim sobretudo, quando não apenas, “sites”. Ano após ano, está-se a perder o hábito de uma “leitura de fôlego”, em prol de uma “leitura fragmentada”, o que tem necessariamente consequências nefastas – desde logo, na capacidade de compreensão e de verbalização.

Por outro lado, porém, estamos absolutamente convictos de que o “caminho democrático” que se consolidou no Ocidente no último século não é reversível. As pessoas, em geral, interiorizaram que a opinião é livre e que têm todo o direito a exprimi-la. Por mais que o resultado disso não seja muitas vezes o melhor – veja-se, por exemplo, o que em geral acontece nas ditas redes sociais… –, o caminho não passa por retirar às pessoas o seu direito à livre opinião. Passa antes por intervir cada vez mais no espaço público, procurando elevar o nível das opiniões das pessoas, em prol de uma melhor “opinião pública”. Por mais frustrante que quase sempre seja, eis, a nosso ver, o único verdadeiro “caminho da cidadania”. ■