Poética da Nova Águia (I)

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A Revista Nova Águia tem uma identidade que se foi consolidando de número para número, desde o ano de 2008. Já quase nas três dezenas de números, essa identidade pode-se formular da seguinte forma: a Revista Nova Águia procura, no século XXI, dar voz a toda uma tradição que, no século XX, brotou, primacialmente, da Revista A Águia e do Movimento da Renascença Portuguesa. 

Tal como a Revista A Águia foi o órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, também a Revista Nova Águia se assume com o órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono (e de outras entidades próximas, como o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e a Fundação Lusíada). Um órgão plural, mas que tem sempre em vista esse Horizonte: o de uma Cultura de Língua Portuguesa, o de uma Cultura Lusófona. Por isso, procura a Nova Águia dar voz a uma Filosofia Lusófona, extensiva a todas as Culturas de Língua Portuguesa, e não já apenas a uma Filosofia (estritamente) Portuguesa.

Assumindo-se como uma Revista de “ensaio e poesia”, a asa ensaística da Nova Águia tem sido, desde o primeiro número, mais preponderante, na abordagem de múltiplos temas e autores dessa Cultura Lusófona a que, número após número, temos dado voz, procurando sempre não nos circunscrevermos a autores portugueses. Número após número, por via de autores lusófonos não portugueses, temos assim procurado cimentar pontes entre as diversas Culturas de Língua Portuguesa. 

Eis, assim, o nosso Caminho e o nosso Horizonte – que, sendo mais evidente na asa ensaística, não deixa também de ser visível na nossa asa poética. Quiçá de forma ainda mais plural, pode-se igualmente falar uma identidade poética da Nova Águia, que procuraremos aqui expor, partindo para tal, de um excerto de uma célebre carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, a propósito da publicação da Mensagem: «Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a Mensagem não as inclui».

Esse conceito de “nacionalismo místico”, tal como aparece corporizado no Mensagem, parece-nos, com efeito, um conceito assaz pertinente e operativo para caracterizar, senão toda a poesia da Nova Águia, pelo menos, decerto, uma das suas traves mestras. Ainda que, pela sua vocação lusófona, se pudesse, mais rigorosamente, falar de um “transnacionalismo místico”, nomeadamente pela tematização poética de uma “lusotopia” que em muito excede o espaço (estritamente) português. Sendo certo que, “à parte isso, e até em contradição com isso”, a Nova Águia tem sido, poeticamente, “muitas outras coisas”, como Samuel Dimas muito bem aduz no seu ensaio “Ecumenismo espiritual na poética da Revista Nova Águia”.  ■

Agenda MIL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 22 de Outubro, 15h30: Conferência “Identidades Culturais”, Aula Aberta de Licenciatura de Estudos Culturais.