Um presente (ainda de Natal) para o Presidente do Brasil

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Nos anos sessenta, Agostinho da Silva queixou-se de uma certa “esquerda” brasileira, nos seguintes termos: “aquela gente da Universidade [de Brasília] começou logo a levantar o boato de que eu fôra mandado para lá pelo Salazar para tentar uma recolonização do Brasil. Isto era coisa daquela esquerda — eu e muita gente no Brasil chamava-lhe a «esquerda festiva» — que era uma esquerda meio burlesca e sobretudo bastante mal-intencionada” (Vida Conversável, org. e pref. de Henryk Siewierski, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p. 157).

Essa “esquerda” parece agora ressurgir, no século XXI, em todo o seu esplendor, através do Programa “Porta dos fundos” – falamos, claro está, do já célebre episódio onde procuram ridicularizar as principais figuras da religião cristã, que tanto brado tem provocado, dos dois lados do Atlântico. Mil e uma vozes já surgiram a defender os responsáveis do Programa, em nome da “liberdade de expressão”, mas o nosso ponto não é esse.

Decerto, o Programa “Porta dos fundos” tem o direito formal de procurar ridicularizar a religião cristã, como todas as outras religiões. Para mais, todas as elas têm particularidades susceptíveis de provocar um riso fácil. A crença budista, por exemplo, na reencarnação, não só entre humanos mas igualmente entre humanos e animais – não é preciso ter uma grande imaginação para realizar um programa com vários episódios só em torno desta crença… Não que nos estejamos a candidatar ao cargo de argumentista da “Porta dos fundos”. Como dissemos, o nosso ponto a propósito dessa polémica não passa por aí.

O nosso ponto é simplesmente este: têm noção do quanto toda esta polémica beneficia Jair Bolsonaro? A completar um ano de mandato, ao actual Presidente do Brasil restam muito poucas bandeiras. Quase todas as promessas “reformistas” – nas mais diversas áreas, do sistema político ao sistema judicial, do sistema económico ao sistema de segurança social – têm-se perdido em acordos de negociação sem fim à vista. Desde logo, porque a base de apoio de Bolsonaro juntou correntes políticas muito diversas entre si: de ultra-liberais a ultra-conservadores.

Pouco mais restava a Bolsonaro do que a guerra contra o que designa como o “marxismo cultural” – ou seja, a acusação de que a esquerda brasileira (ou parte dela) está apostada em minar os valores histórico-culturais do Brasil, que certamente passam (também) pela religião cristã. Em Portugal, a esquerda (quase toda ela) aprendeu bem a lição da I República – não tivesse sido a guerra então movida contra a Igreja uma das principais razões da implantação (e duração) do Estado Novo. No Brasil, parece que há quem queira brincar de novo com o fogo. Sabendo-se que os responsáveis do Programa “Porta dos fundos” são assumidos activistas anti-Bolsonaro, só nos resta concluir que eles não estão a ver bem este filme. Decerto de forma involuntária, deram-lhe o melhor presente de Natal. ■ 

Agenda MIL: 14 de Janeiro, 15h, no Palácio da Independência (Lisboa): reinício do Curso IFLB sobre Filosofia e Cultura Luso-Brasileira.«