Um País, Dois Destinos: Bloco de Esquerda – a Hora da Verdade

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Bloco de Esquerda

HENRIQUE NETO

Estava escrito nas estrelas que mais tarde ou mais cedo o Bloco de Esquerda seria confrontado com um caso que, até ver, é de enriquecimento fácil, o que num partido que combate o capitalismo e a economia de mercado, é obra.

Que Ricardo Robles não tenha dado por isso e que a dirigente do Bloco de Esquerda Catarina Martins tenha ensaiado a teoria da cabala, apenas demonstra que não são melhores, ou diferentes, de outros políticos, ou de outros partidos sob investigação.
Que Catarina Martins tenha ainda comprometido o partido num processo que só agora começou, sem sequer esperar pelo previsível desenvolvimento do caso, só se explica se os dirigentes do partido conheciam ou faziam parte do negócio, na medida em que aprovaram de imediato o comportamento deste seu militante e autarca.

Claro que este não é caso único, outros partidos têm casos semelhantes e, por isso mesmo, deve ser investigado nos seus contornos pela Procuradoria-Geral da República e nas várias vertentes que o caso comporta, as quais devem servir para compreender melhor como funciona a mais antiga e a mais bem oleada máquina de corrupção do País: a autarquia de Lisboa.

A única coisa que mudou entretanto resulta da febre do imobiliário que atacou a cidade e de as oportunidades serem agora mais, o que permite que mesmo um amador como Ricardo Robles possa ganhar uns milhões de euros em pouco tempo, ainda que com algumas pontas que devem ser investigadas.

Vejamos algumas:

1- O mais importante é o investidor ser parte do sistema, ou lá ter alguém da sua confiança, afim de ter acesso à informação, ou seja, saber onde estão os melhores negócios, Ajuda portanto ser autarca e estar próximo dos centros de poder da autarquia, por exemplo, estar nas boas graças do arquitecto Manuel Salgado. Porque não basta comprar um prédio a baixo custo, é também necessário garantir a boa vontade dos serviços e a rápida aprovação da obra, bem como garantir o muito rendoso aumento da volumetria, ou ainda fechar os olhos relativamente aos pequenos ou grandes desvios das boas regras do projecto e da construção. Aparentemente, de tudo isso beneficiou o autarca Ricardo Robles, a julgar pelas informações que entretanto foram sendo conhecidas, o que não seria de todo possível se não estivesse nas boas graças do poder autárquico.

2- Ricardo Robles não comprou o prédio a um qualquer proprietário, mas à Segurança Social e a um preço de amigo, ou seja, é essencial conhecer a razão por que o prédio foi vendido por apenas 345.000 euros quando, como se viu, valia muito mais, com natural prejuízo dos trabalhadores e das empresas que sustentam o orçamento da Segurança Social. E logo adquirido por um autarca que diz defender o interesse da colectividade contra os interesses do capital, quando poderia, de acordo com os valores que defende, propor à autarquia, preocupada com o arrendamento em Lisboa, a compra e a reconstrução do prédio para o alugar a preços socialmente aceitáveis e recusando o arrendamento de curta duração.

O facto de nada disso ter sido feito por Ricardo Robles, mostra até onde vai a hipocrisia, não apenas do autarca feito investidor, ou a do Bloco de Esquerda, mas também da autarquia de Lisboa e do Governo, em que todos pretendem que sejam os proprietários a pagar a ausência de políticas públicas de habitação justas e equitativas.

3- Suponho que os portugueses gostariam de conhecer alguns outros pormenores do caso como, por exemplo: a razão por que a Caixa Geral de Depósitos emprestou meio milhão de euros a alguém que, ao tempo, tinha um rendimento de cerca de 1.500 euros mensais; a razão por que a autarquia convidou rapidamente Ricardo Robles a fazer obras e ainda mais rapidamente aprovou o projecto com mais um piso, ou quando, segundo os protestos de um vizinho, foram feitas várias ilegalidades e porque é que os protestos desse vizinho não foram aceites; ou qual a razão por que Fernando Medina e a sua vereação se puseram tanto a jeito para favorecer um autarca da casa. Suponho que nada disto foi inocente e uma boa investigação pode clarificar muita coisa, nomeadamente por comparação com outros investimentos semelhantes.

Ricardo Robles poderia ter-se demitido logo que viu no jornal a história do seu prédio, ou poderia ter evitado contar histórias da carochinha sobre as suas intenções. Dizer que era um negócio da família, que tinha permitido o arrendamento por mais oito anos a um casal de idosos, quando a lei a isso o obrigava e sem limite de tempo, ou que tinha tido um comportamento exemplar quando ainda tem um processo em tribunal de um arrendatário e mais cinco trabalhadores desempregados, além de alguns problemas que não resolveu com o vizinho, ou dizer que o prédio se destinava à habitação da irmã em onze apartamentos de quarenta metros quadrados cada um, dá que pensar.

Ou seja, nada disto diz muito bem da inteligência, nem da seriedade, do autarca escolhido pelo Bloco de Esquerda e aceite por Fernando Medina para permitir o controlo da autarquia, sem oposição aos grandes negócios em curso, alguns bastante caros, como é o caso da nova linha circular do Metro destinada a favorecer o imobiliário no centro da cidade.
Suponho que este caso de Ricardo Robles ainda vai dar muito que falar e espero que tenha algum efeito na forma como os portugueses se dividem entre a esquerda e a direita, ajudando à compreensão de que na política portuguesa não há inocentes. Ricardo Robles, Catarina Martins e Francisco Louçã, entre outros, tiveram o mérito de mostrar ao País que no Bloco de Esquerda, tal como nos outros partidos, os princípios e os valores acabam à porta dos interesses pessoais e partidários. E quanto mais os partidos sobem a escada do poder, pior.

Finalmente, talvez não tenha sido um acaso que Ricardo Robles tenha escolhido a Christie’s para lhe vender o prédio: foi uma opção que se integra bem naquilo a que muitos chamam a esquerda caviar. Com a nota realista de que podendo um caso como este acontecer também no PCP, nunca teria da parte da direcção do partido o mesmo tratamento político, ou sequer assistiríamos à tentativa canhestra dos dirigentes do Bloco de Esquerda de tentar tapar o sol com uma peneira.