Marcelo, o bombo da festa

Não é por falta de candidatos a Presidente da República que os portugueses deixarão de se sentir representados em Belém após as eleições de 2021. Para já, da direita à esquerda, une-os um denominador comum: o ataque ao actual PR.

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Quer para candidatos com apoio partidário e suporte financeiro, quer para extravagantes sem eira nem beira que se apresentam em todas as corridas a Belém, a evidência é confirmada invariavelmente pelas sondagens às intenções de voto dos portugueses: Marcelo Rebelo de Sousa, o irritante popularucho das ‘selfies’, o grilo falante de todos os telejornais, continua de pedra e cal como favorito.

No PSD e no CDS, onde Marcelo é o “candidato natural”, o ‘jogo’ das presidenciais será fácil de ‘jogar’. Mas o que as sondagens indicam claramente é que, mesmo em partidos do espectro político onde isso não seria expectável, muitos eleitores tencionam pôr a cruzinha à frente do nome do Professor. O máximo a que a generalidade dos concorrentes pode aspirar nas presidenciais é um curto minuto de fama durante a campanha. 

Claro que Marcelo não vai passar a campanha eleitoral a fazer turismo, mas aconselha os eleitores. Esta semana, o Presidente da República pediu aos portugueses que continuem a fazer turismo em Portugal para ajudar esse sector e também a restauração e o comércio.

Ana Gomes desgastada

“Não tenham pressa em conhecer o resto do mundo. Tenham pressa em conhecer melhor Portugal”, exortou o Chefe do Estado, no encerramento da 5ª Cimeira do Turismo, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “esta fase é a mais difícil” da crise provocada pela pandemia de covid-19, que se prolongará por “seis meses, sete meses, e por isso é muito importante contar com o turismo português no próximo ano e, em particular, até ao fim do próximo Verão”. “É aí que tudo se joga”, defendeu.

É assim, posicionando-se no centro da agenda dos temas públicos e comparecendo a todos os actos onde pode ter visibilidade, que Marcelo marca o seu território e suplanta toda a concorrência. Este é também um factor de divisionismo no Partido Socialista, onde o actual PR ganhou uma surpreendente popularidade, apesar de muitos militantes do PS terem já indicado que votarão em Ana Gomes (a ala dos descontentes com a política errática de Costa) ou em Marisa Matias (a ala esquerdista capitaneada pelo ambicioso Pedro Nuno Santos). Para todos os efeitos, Marcelo é o candidato favorito do líder socialista, ainda que não possa declará-lo “oficialmente”. 

Com Ana Gomes cada vez mais desgastada pela escolha de Paulo Pedroso para mandatário nacional da sua campanha, será agora nas franjas do espectro político que se concentrarão as críticas mais agudas a Marcelo Rebelo de Sousa.

Acusações
à esquerda

João Ferreira, o candidato à Presidência da República apoiado pelo PCP, acusou já Marcelo Rebelo de Sousa de não ter defendido o direito constitucional à habitação. “O que vimos nestes últimos anos foi, em momentos decisivos, por exemplo quando se tratou de garantir aos inquilinos de um grupo financeiro – a Fidelidade – o direito de preferência sobre as habitações, a verdade é que essa possibilidade foi vetada pelo actual Presidente da República”, acusou o candidato comunista, em declarações aos jornalistas à margem de uma visita que realizou na zona da Sé e da Ribeira do Porto.

O candidato comunista acusou também o anterior governo do PSD/CDS (que, assim, pretendeu “colar” ao actual PR) de agudizar o problema do direito à habitação com a “lei dos despejos”. “Quando se tornou necessário ter uma palavra sobre a lei das rendas, a lei dos despejos, quando se tornou necessário ter uma palavra sobre a ausência de políticas de habitação públicas que juntem Governo e municípios na criação de habitações a preços acessíveis, essa palavra faltou a partir de quem tem ocupado as funções de Presidente da República”, continuou o candidato comunista à Presidência da República.

Para Ferreira, é necessário “formular” a alternativa para o “exercício de poderes do Presidente da República” e assumir que as políticas que têm existido não têm cumprido com o “preceito constitucional que é o direito à habitação”.

“O Presidente da República não é Governo, mas tem uma responsabilidade grande, até pelo juramento que faz de defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição (e a Constituição tem lá inscrito o direito à habitação e tem lá inscrito também o que é que o Estado deve fazer para concretizar este direito à habitação), e por isso tem de ser consequente com esse juramento”, “nas tomadas de decisão pública, na apreciação que faz às leis que promulga, na apreciação de falhas por omissão na acção dos governos”, para que esse direito não “esteja só nas páginas da Constituição”.

Ventura teme
pela classe média

Por seu turno, o líder do Chega atacou esta semana pelo lado da economia ao considerar que o Plano de Recuperação e Resiliência vai deixar a classe média fora dos programas de habitação pública, em benefício “dos mesmos de sempre”, e advertiu contra futuros impostos europeus.

Estas posições foram transmitidas pelo mais destacado candidato presidencial da direita após ter sido recebido pelo primeiro-ministro, António Costa, em São Bento – encontro em que o deputado do Chega disse que apenas foi confrontado “com um conjunto de ideias vagas e de tópicos”.

De acordo com Ventura, o Governo prepara-se para gastar “cerca de 3,2 mil milhões de euros em políticas de natureza social, esquecendo muita da classe média que sustenta este país”. E explicou: “Mais uma vez vamos ter o seguinte: os que já estão habitua-
dos a receber vão receber ainda mais e teremos um aumento da subsidiação. Na habitação, questionei o PM sobre se o dinheiro vai servir para ajudar as famílias de classe média, de classe média baixa, portugueses comuns, ou se estamos a falar de habitação pública, que vai para os mesmos de sempre, que não pagam renda há 30 anos, mas têm um Mercedes à porta de casa”. Perante esta dúvida, o presidente do Chega afirmou estar convencido de que o grosso da verba nesta área vai mesmo para habitação pública, “o que é grave”.

Neste plano, André Ventura apontou também que o Governo se prepara para transferir 500 milhões de euros para as empresas e 1,8 mil milhões de euros para a administração pública, acentuando a “ideia de dois países: o público e o das famílias e empresas”. “Não sei se o Governo procura votos na administração pública, mas esquece-se que há mais vida para além do sector público. Temos empresas a passar muito mal”, sublinhou.

André Ventura advertiu ainda que, para financiar o Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia, vão ser criados novos impostos à escala da Europa. “Com muita probabilidade, vão ser criados impostos europeus sobre os plásticos ou plataformas digitais. Os portugueses têm de saber isto. Depois, é bom que os portugueses também saibam que quem atribui o dinheiro impõe regras onde ele vai ser gasto, o que é inaceitável para um Estado soberano”, acrescentou. ■