Cinema: Nómadas, estepes, caravana

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Na cena inicial de “Nomadland – Sobreviver na América” (2020) é Natal. É Natal algures na América e algures no Nevada há um armazém da “Amazon”. O armazém enche-se todos os Natais com mão de obra nómada para fazer face à sazonalidade do espírito natalício. A crise do “subprime”, a gentrificação, a fuga de capitais e o desmantelamento da indústria pesada. A América de hoje, mais distendida nos seus grandes espaços, esvaziada em êxodos para o litoral, cheia de estradas por percorrer. 

Em “Nomadland” encontramos Frances Macdorman que é Fern, que é nómada, que teve de sair da cidade de Empire, algures no Nevada, algures na América. A cidade, que agora é uma fantasmagoria, já foi um centro nevrálgico da produção de contraplacado. Um coração contraplacado. Um império de serrim dentro do império americano. Fern sai de Empire no seu furgão e percorre o Nevada. De emprego em emprego, numa América interior que é só gelo, só vento e só estepe. “Factotum”. 

O filme de Chloé Zhao entra país adentro, pela ruralidade tantas vezes esquecida por Hollywood. Zhao entra pelos planaltos desabitados, pelas montanhas refractárias à vida humana, pelas cidades que são menos cidade, menos urbanas e menos preocupadas com os problemas tardo-modernos. São paragens que já não garantem o sustento de quem as habita, onde o sonho americano pendurou ou perdeu as botas, onde tudo é tão velho como o pó deposto. Onde tudo é tão velho como o velho oeste. De certo modo, é como se o continente quisesse recuperar novamente as suas terras. Como se a paisagem levasse, tanto tempo depois, a melhor aos “cowboys”. Agora já não há nenhum horizonte de esperança para cavalgar em direcção ao pôr do sol, nenhuma caravana para assaltar e nenhum xerife para desafiar. Não há ninguém.

O itinerário de Fern apresenta-se como um “western” invertido, de pernas para o ar, a escorraçar o sonho da conquista. Aliás, as personagens que se vão sucedendo no filme de Zhao já não são colonos. São nómadas. Viajam de cidade em cidade, de emprego em emprego. Não se fixam em sítio algum, que o campismo selvagem é proibido. Têm carrinhas convertidas em águas-furtadas com rodas. Não deixam rasto. Vão de cidade em cidade, de emprego em emprego e não deixam marca. Ficam apenas as montanhas na lonjura, o vento que não pára de soprar e as noites que são sempre frias para os forros de furgão. Um país de nómadas já não é um país. É uma qualquer Pangeia, um sítio de passagem, uma área de serviço.

Nesta área de serviço encontramos, no entanto, uma humanidade comum feita de encontros possíveis, de mínimos denominados a possibilitar o encontro. Em “Nomadland” as pessoas conversam, independentemente das distâncias que os apartam, das origens incomuns e dos destinos sempre distintos. As pessoas são muito diferentes e falam. Conversam e entendem-se. Afinal, ainda existe uma humanidade comum que não é espartilhada pela espuma dos dias? Ainda existe quem consiga conversar para além do esperanto universal? No filme de Zhao não há uma pátria comum, mas há a possibilidade do encontro simultaneamente rodoviário e existencial… ■