Cassiano Branco: Arquitectura e Artifício

Cassiano Branco: Arquitectura e Artifício

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JOSÉ ALMEIDA

O espírito manifesta-se pela estética, pelo que as obras de um regime procuram através desta expressar as linhas de força de uma doutrina ou ideologia. Este esforço deve, no entanto, acompanhar a identidade e tradição do Povo que empreende essa missão edificadora e, simultaneamente, identificadora de uma época. Cassiano Branco foi, nesse sentido, um obreiro e timoneiro da expressão estética de um Portugal cujo espírito se pautava pelo enlace entre tradição e modernismo.

Publicado pela Caleidoscópio, “Cassiano Branco 1897-1970. Arquitectura e artifício” (capa dura, 600 páginas, 39,75 euros) é o resultado da investigação de doutoramento de Paulo Tormenta Pinto. Um livro extenso que aborda exaustivamente a obra do arquitecto português, oferecendo ao leitor um vasto leque de documentos – projectos, desenhos, fotografias e outros elementos –, que permitem aprofundar em pormenor e rigor certos aspectos do seu legado. Uma publicação que honra a arquitectura, mas defrauda a figura de Cassiano Branco, aqui transformado numa espécie de Albert Speer, ou seja, num maquiavélico traidor que constrói uma carreira, em grande parte, às custas de obras públicas, mas que na hora da verdade se apresenta ao público como uma vítima opositora ao regime que serviu. Facto que, como sabemos, está longe de ser assim tão linear.

Nascido em Lisboa, em 1897, Cassiano Branco tornou-se um dos nomes cimeiros da arquitectura portuguesa da primeira metade do século XX. A sua obra marcou não só o espaço público e privado de Portugal, como deixou também vestígios do seu legado na antiga província ultramarina de Angola. Contrariamente à opinião de certos cultores da desinformação histórica, a traça modernista que caracterizava as suas obras não chocava com o espírito e imaginário do Estado Novo. Pelo contrário, ela integrava-se na “Política de Espírito” implantada por António Ferro logo nos primeiros anos da nossa ditadura. Deste modo, contrariamente ao que é sugerido pelo autor deste livro e a julgar pelo número de encomendas estatais que recebeu, Cassiano Branco foi mais arquitecto do regime do que o próprio Raul Lino. Aliás, a ele se deve o projecto do plano urbanístico da Exposição do Mundo Português, bem como outras obras emblemáticas do Estado Novo, como é o caso do célebre parque didáctico-pedagógico de Coimbra, carinhosamente baptizado como Portugal dos Pequenitos.

Em “Beleza”, o filósofo britânico Roger Scruton contrapõe-se ao arquitecto Louis Sullivan, acusando-o de tratar a beleza como um “subproduto da funcionalidade e não como o objectivo determinante”. Ora, este não era o caso de Cassiano Branco que, ensaiando linhas arrojadas e modernistas, não deixava de integrar as suas criações dentro do espírito nacional, de acordo com a expressão estética e programática do Portugal daquele tempo. Podemos facilmente compreender esse aspecto das suas obras ao analisarmos alguns dos edifícios que projectou para espaços nobres de várias localidades como, por exemplo: o Teatro Éden, ou o Hotel Vitória, em Lisboa; o Coliseu do Porto, ou o Grande Hotel das Termas de Luso.

Redigido em bom português, pré-AO90, este livro peca pela natureza do normativismo político que subjaz à caracterização do nosso arquitecto e da época em que viveu. Não obstante esse facto, bem como uma certa ligeireza na abordagem do confronto a outros aspectos ligados à História de Portugal, a profundidade da análise à obra de Cassiano Branco levada a cabo neste trabalho torna-o um importante marco para a revitalização da memória da arquitectura portuguesa do século XX.

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