Crise no CDS: “Chicão” debaixo de fogo

Francisco Rodrigues dos Santos está debaixo de fogo: a oposição interna responsabiliza o actual líder pelas sucessivas sondagens que dão um péssimo resultado ao CDS. Com muitos votos a fugirem para o Chega, de André Ventura, já há quem fale num Congresso electivo antes mesmo das eleições autárquicas, para travar o que se teme ser o risco de desaparecimento do partido.

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Acusam-no de se rodear de inexperientes. De não acompanhar como devia a agenda política quotidiana. De deixar a iniciativa ao rival CHEGA. De não ter uma estratégia que o eleitorado compreenda. Por tudo isto, a reunião do Conselho Nacional do CDS, agendada para o final deste mês, promete ser muito inflamada. A direcção de Rodrigues dos Santos respondeu aos descontentes de forma pouco polida: “Eles que apareçam. Vão ser tosquiados”. Para já, uma coisa é certa: ou as seis autarquias agora detidas pelo CDS continuam a ser lideradas pelo partido, ou uma rebelião interna é inevitável.

Há quem peça uma demarcação clara em relação às ideias de André Ventura, frisando que o CDS esteve sempre na margem da Democracia. Há ainda quem se refira, nas redes sociais, à nova equipa de Rodrigues dos Santos como um grupo de ‘escuteiros’. Outros falam de uma liderança errática.

São críticas que estão em crescendo e que colocam em risco a liderança de “Chicão”. Para contrariá-las, o líder lançou-se há duas semanas num conjunto de iniciativas públicas, mas nas hostes contestatárias a descrença instalou-se. 

Emergência Social

Numa resposta às críticas que lhe são feitas, Rodrigues dos Santos decidiu criar um grupo de trabalho para preparar um “Programa de Emergência Social” de resposta à crise pandémica do Covid-19. Este grupo vai recuperar destacados ex-dirigentes como Luís Nobre Guedes, António Lobo Xavier ou António Pires de Lima. Ao rodear-se deste grupo de senadores, o líder tenta dar um sinal de unidade interna. Mas muitos não acreditam que o CDS consiga recuperar nas intenções de voto. Recorde-se que nas mais recentes sondagens, de finais de Maio, o CDS surgia reduzido a 2,8%, atrás do PAN (3%), da coligação comunista CDU (5,8%), do Bloco de Esquerda (6,1%) e do CHEGA (6,4%), partido que ocupa agora o 3º lugar no espectro parlamentar e para o qual estarão a transferir-se muitas intenções de voto tradicionalmente ligadas ao CDS. 

O Grupo para a Recuperação Económica e Social de Portugal (GRESP) é formado por oito personalidades e, segundo o líder centrista, tem por objectivo “apresentar um programa para a emergência social e oferecer um plano para a retoma da actividade económica após a pandemia do Covid-19”. Esta “unidade de missão terá como fito a construção de propostas que perspectivem a tão proclamada Reforma do Estado”, refere Rodrigues dos Santos.

Além de Lobo Xavier, Pires de Lima e Luís Nobre Guedes, o “Grupo dos 8” inclui ainda António Galvão Lucas, António Maia Gonçalves, Sandra Strecht e as independentes Paula Guimarães e Paula Morais. O presidente do CDS sublinha que o elenco escolhido demonstra “a inequívoca união de várias gerações e correntes do CDS, sinal de que o partido está coeso e focado em ser útil a Portugal e aos Portugueses”. Ao incluir “destacados militantes”, mas também independentes, “prova que o CDS-PP tem sabido abrir-se ao exterior e atrair o que de melhor a sociedade civil tem para oferecer à política”, assinala o líder do centrista.

Patriotismo
no Turismo

Mesmo antes do trabalho que vai ser elaborado pelo GRESP – sem que tenha sido divulgado qualquer prazo para a concretização da elaboração deste Programa – o presidente do CDS está já a traçar linhas gerais para alguns sectores. Defendeu que se avance com uma estratégia global de “patriotismo económico” em sectores exportadores como por exemplo o turismo, que contribui para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional em cerca de 15%.

“É necessário iniciar-se uma estratégia global de patriotismo económico onde esteja claro uma aposta radical nos nossos sectores exportadores como por exemplo é o caso do turismo”, declarou Rodrigues dos Santos, que começou a semana com uma reunião com o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins. O líder do CDS considerou que tem de existir uma “campanha nacional que apele ao turismo interno” e que “procure o turista português”, um elemento “vital neste período crítico para se vencer esta emergência que o país está a viver”.

“O Governo tem que, de uma vez por todas, afinar o tiro, e perceber que todo o dinheiro que neste momento não estiver em condições de oferecer para injectar liquidez na economia e fazer um choque de tesouraria nas empresas, é uma verba muito mais avultada que terá de gastar mais à frente a título de contribuições sociais como nos subsídios de desemprego”, acrescentou.

O líder do CDS afirmou que o sector do Turismo tem de ser “protegido”, pois apesar do seu forte contributo para o PIB nacional, as quebras foram muito acentuadas, na casa dos 25%. Recorde-se que o Turismo congrega sensivelmente 400 mil postos de trabalho e tem de conseguir “vencer este período de crise pandémica, defendeu. “São necessárias ajudas para que estas pequenas e médias empresas e micro-empresas que compõem 96% do tecido empresarial em Portugal possam sobreviver e manter-se de portas abertas e salvar postos de trabalho”, diz o líder do partido.

O CDS voltou a defender que as soluções para apoiar o sector do turismo, que regista perdas na taxa de ocupação de Março a rondar os 60% comparado com o período homólogo de 2019, passam pelo “alargamento do ‘lay-off’ simplificado até ao final do ano, bem como pela “duplicação das linhas de crédito”, com uma percentagem garantida “a fundo perdido pelo Estado”. Medidas que Costa já travou.

A “eliminação dos pagamentos por conta” e a “criação de um mecanismo de acerto de contas entre o Estado e os contribuintes” são outras soluções apresentadas pelo CDS, considerando que esta altura de pandemia “pode ser uma oportunidade para os territórios de baixa densidade populacional, que oferecem segurança ao nível da saúde pública, tranquilidade e privacidade”.

Críticas ao Governo

O líder popular resolveu endurecer as críticas ao Governo de Costa acusando-o de estar a “abrir portas à corrupção” e ao “amiguismo” ao fazer contratação pública “sem controlo” e “eliminando regras da “transparência” durante a pandemia. “Parece-nos que está a abrir as portas à corrupção, ao amiguismo, o que é um sinal muito preocupante num país que tem de ser sério, sobretudo nas alturas de crise. Depois haverá dinheiro para os filhos e os enteados parece que ficarão a arder com os calotes do Estado”, comentou o líder do CDS.

As acusações de Rodrigues dos Santos surgem no âmbito da “revisão das regras da contratação pública e dos concursos públicos”, bem como da “faculdade de haver ajustes directos”, que no caso de ficarem vazios têm “regras muito mais facilitadoras de negócio para potenciais interessados”, também por causa da “eliminação dos vistos para o Tribunal de Contas”, explicou.

“O CDS percebe que o Governo não paga aquilo que deve, acumula dívidas avultadas a fornecedores, atrasa-se a pagar o ‘lay-off’ e com a burocracia também vai diferindo os pagamentos das linhas de crédito. Mas agora parece que quer contratar, ao nível público, sem qualquer controlo, eliminando regras essenciais à transparência e à gestão dos dinheiros públicos”, acusa Rodrigues dos Santos. ■

São críticas que estão em crescendo e que colocam em risco a liderança de “Chicão”. Para contrariá-las, o líder lançou-se há duas semanas num conjunto de iniciativas públicas, mas nas hostes contestatárias a descrença instalou-se.

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