Vitória amarga

Pânico é a palavra que melhor pode caracterizar a reacção dos socialistas aos resultados da legislativas regionais dos Açores. Foi uma vitória amarga, uma espécie de feitiço que se voltou contra o feiticeiro.

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A crise grave – já há quem queira novas eleições – é explicada pelos números. A loucura está instalada nos Açores, já que matematicamente a Direita tem hoje mais deputados regionais do que a Esquerda. O Parlamento açoriano tem agora oito forças políticas diferentes. Em 2016, eram seis os partidos com assento no parlamento regional. Vasco Cordeiro, líder socialista e chefe do Executivo do arquipélago, vai ter de andar agora à pesca de votos para viabilizar o Programa do Governo no Parlamento regional.

Assim, o PS venceu no último Domingo as legislativas regionais dos Açores, mas, em números absolutos, perdeu 2.573 votos em relação a 2016, enquanto o PSD, o segundo mais votado, cresceu, tendo obtido mais 6.301 votos do que há quatro anos. Segundo dados oficiais da Direcção Regional de Organização e Administração Pública, o PS tinha conseguido 30 mandatos em 2016, com 43.274 votos (46,43%), mas no Domingo reduziu o número de votos para 40.701 (39,13%), menos 2.573, obtendo 25 mandatos, insuficientes para a maioria absoluta.

O PPD/PSD, a segunda força mais votada nas eleições de Domingo, obteve 28.790 votos (30,89%) em 2016 e 35.091 votos (33,74%) no Domingo, mais 6.301 votos, que lhe valeram 21 mandatos, mais três do que nas legislativas regionais anteriores. 

Além do PS e do PSD, em termos de números absolutos e em relação aos partidos que já se candidataram em 2016, o CDS-PP perdeu votos enquanto o BE ganhou. Por outro lado, candidataram-se pela primeira vez o Chega e a Iniciativa Liberal (IL) e conseguiram, respectivamente, dois mandatos e um mandato.

O CDS-PP continua a ser a terceira força do arquipélago: conseguiu no domingo 5.734 votos (5,51%) e três mandatos, menos 640 votos do que em 2016, quando obteve 6.674 votos (7,16%) e teve quatro mandatos. O PPM, com 2.431 votos (2,34%), manteve um mandato, tal como em 2016, altura em que obteve 866 votos (0,93%), menos 1.565 votos do que domingo. Mas o partido monárquico, em conjunto com o CDS-PP, conseguiu ainda 115 votos (0,11%) no Corvo, elegendo assim outro deputado regional.

O Chega não concorreu aos Açores em 2016 e posicionou-se no Domingo como a quarta força política mais votada, com 5.260 votos (5,06%), e conseguiu dois mandatos. O Bloco de Esquerda, que em 2016 foi a quarta força política, com 3.410 votos (3,66%) e dois mandatos, conseguiu agora manter o número de mandatos e reforçou o número de votos, obtendo 3.962 (3,81%), mais 552 do que nas legislativas anteriores.

A Iniciativa Liberal (IL), que também não concorreu em 2016, obteve no domingo 2.012 votos (1,93%) e elegeu um deputado regional pelo círculo regional de compensação. O PAN conseguiu 2.004 votos (1,93%), reforçando a sua votação em 672 votos, e entrou pela primeira vez no parlamento com outro dos mandatos pela compensação, quando em 2016 tinha sido a sexta força política, com 1.332 votos (1,43%). O PCP-PEV, com 1.745 votos (1,68%), saiu do parlamento regional, onde em 2016 teve um deputado regional depois de obter 2.431 votos (2,62%), mais 686 do que no Domingo. Também sem mandatos ficaram o partido Aliança, o Livre, o MPT e o PCTP/MRPP.

Tudo em aberto

O PS de Vasco Cordeiro está agora tomado de nervoso miudinho. O resultado das eleições legislativas dos Açores deixa “tudo em aberto, independentemente de o PS ter ganho”, defende a investigadora de Ciência Política Teresa Ruel, referindo que há que equacionar a possibilidade de a Direita poder formar Governo.

“A grande expectativa social e política é vermos como é que esta configuração, dadas estas novas forças políticas, como é que esta aritmética e estes novos pesos eleitorais de cada um dos partidos se vão transformar em soluções governativas, seja à esquerda, seja à direita”, afirmou Teresa Ruel, investigadora e professora de Ciência Política do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa.

Teresa Ruel considera que “é evidente” a mudança na configuração do parlamento açoriano, destacando a perda de mandatos por parte do PS, do CDS e do PCP-PEV, que perdeu mesmo a representação parlamentar, e o ganho de deputados eleitos por parte do PSD, do Chega, da Iniciativa Liberal e do PAN. “Por esta nova circunstância de o PS ter perdido a sua vantagem em termos governativos, em termos de poder na região, vai acabar por ter de negociar alguma estabilidade com os outros partidos, não sabemos bem ainda onde e por que caminho essa negociação ou essa estabilidade vai seguir”, explicou a investigadora.

Teresa Ruel sublinha que a governação nos Açores é “um cenário em aberto”, em que se pode “equacionar a possibilidade de a Direita poder formar também Governo e apresentar uma solução governativa distinta da existente”. “Apesar de tudo, está tudo em aberto, independentemente de o PS ter ganho as eleições. Também já nos habituámos a que não há formas governativas estanques”, frisou à Lusa.

Sobre a entrada de novas forças políticas no parlamento açoriano, designadamente o Chega, a Iniciativa Liberal e o PAN, a professora defendeu que “é muito o resultado daquilo que é o funcionamento e os efeitos do sistema eleitoral dos Açores, nomeadamente através do círculo de compensação”. “O que é significativo é que todos os partidos tradicionais e do sistema até ao momento – BE, PCP, CDS e PS – todos perderam votos, e alguns deles perderam representação”, realçou Teresa Ruel, assinalando que para além do PSD (que viu aumentada a votação), o Chega, a Iniciativa Liberal e o PAN ganharam representação.

Logo na noite das eleições, o PSD/Madeira considerou que a perda da maioria absoluta do PS nas eleições de domingo nos Açores é também “uma derrota do primeiro-ministro” António Costa, que, segundo a estrutura partidária, tem vindo a fazer uma discriminação entre as duas regiões, favorecendo claramente o Governo socialista dos Açores. “Mesmo discriminando de forma positiva e fortemente este arquipélago em relação à Madeira, não conseguiu manter a maioria, nem tampouco reforçar a votação no seu partido”, declararam os sociais-democratas madeirenses em comunicado. Na nota, o PSD realça o facto de o PS, partido que governa os Açores há 24 anos, “ter perdido a maioria absoluta” e sublinha que o resultado “revela a vontade do povo, […] sempre soberana”. ■