25 de Novembro: quem tem medo da liberdade?

A extrema-esquerda e, pelos vistos, uma boa parte da esquerda ainda não digeriram a estrondosa derrota que sofreram em 25 de Novembro de 1975 – uma derrota que ditou o fim do “processo revolucionário” em que tinham mergulhado o País e impôs o regresso às regras da democracia representativa instaurada em 25 de Abril de 1974. Este ano, só o centro-direita parlamentar celebrou o triunfo da liberdade, enquanto o Presidente da República se demarcava levando a cabo uma iniciativa paralela. Parece que dentro do próprio sistema há quem ainda tenha medo (ou será vergonha?) da data em que os Comandos reduziram os comunistas à sua dimensão insignificante.

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Portugal chegara a um estado caótico que um jornalista estrangeiro definiu para o mundo como “manicómio em auto-gestão”. As grandes empresas, grande parte das terras e das fábricas, os bancos e quase todos os principais órgãos de comunicação social tinham sido confiscados (“nacionalizados”, dizia-se então) e postos “ao serviço da revolução”. Esta tomara o freio nos dentes, impondo na rua, no trabalho, na escola e até no quartel uma ditadura ideológica delirante, em total desprezo pelo Parlamento “burguês” eleito em Abril desse ano. As herdades agro-pecuárias estavam “ocupadas” por comités estalinistas, o comércio e a indústria “geridos” por grupos de trabalhadores incompetentes que haviam expulso os patrões, o ensino abolira os exames e instituíra as “passagens administrativas” automáticas, a economia vivia em greve contínua, com as ruas permanentemente pejadas de manifestantes aos gritos; e até na tropa hordas indisciplinadas de magalas de cabelos pelos ombros e barbas à Marx faziam “juramentos de bandeira” de punho erguido, ao som de hinos “revolucionários” de José Mário Branco e outros baladeiros. Música revolucionária tocava, dia e noite, nas rádios “ocupadas”. O trânsito nas estradas era cortado por “barricadas” e “piquetes de vigilância” que revistavam os carros em busca de “armas ao serviço da reacção”. Os repórteres das televisões, de cigarro nos queixos, transmitiam longas arengas sobre as “gloriosas conquistas do proletariado”, enquanto em Alcântara se acumulavam os contentores com os restos de séculos de obra ultramarina, reduzida a cinzas. 

Não, leitor, não se trata do guião de um filme de ficção. Este era o Portugal de 24 de Novembro de 1975, dominado por capitães e majores impreparados, por activistas dos inúmeros partidos da extrema-esquerda que haviam tomado de assalto os mecanismos da economia e da vida social, enquanto no hemiciclo de São Bento os deputados eleitos tentavam manter um simulacro de democracia representativa. 

O fim da fantochada
Dezanove meses haviam passado desde que em 25 de Abril de 1974 um golpe de Estado instaurara alegadamente a democracia, mas já tudo acontecera no catálogo de horrores da revolução. Expulsos os moderados que ingenuamente tinham acreditado na bondade do golpe, atirados para o exílio os grandes empreendedores, cheias as prisões de “inimigos da revolução”, o poder real foi sendo progressivamente usurpado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), por comités ad-hoc, e finalmente por um auto-proclamado Conselho da Revolução que se sobrepunha ao Parlamento, ao Governo e a todos os órgãos de poder. Era, verdadeiramente, um “manicómio em auto-gestão”.

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