A “abrilada” é a tragédia dos retornados

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Os capitães de Abril, transformados hoje em “Brigada do Reumático”, designação com que apelidaram os militares que foram ao “beija-mão” a Marcelo Caetano, pouco antes da golpada primaveril, lá foram parar às galerias da AR, de cravo vermelho ao peito, para comemorar os 48 anos do desastre nacional, já que foram os autores do ignóbil, desastrado, canhestro e desmiolado desmembramento de Portugal.

Desnacionalizado que foi o país, o ensino da História de Portugal já reflecte a ignorância que criaram na juventude sobre o passado de Portugal, em que os militares da golpada são meros figurantes dum acontecimento que degenerou no aniquilamento da soberania, comparados com aqueles que o engrandeceram, levando o nome e a vontade férrea dos portugueses às paragens mais longínquas e ignaras.

Bem tentam os “abrileiros” colocar no pedestal os figurantes do drama em que vivemos, desconhecendo que a História de Portugal comporta apenas as façanhas dos nossos maiores, os sacrifícios dos antanhos, a ousadia dos que venceram e a audácia dos que pretenderam pensar em grande, tudo em nome de Portugal.

A traição ao desígnio histórico não tem lugar na ciência do passado e, por isso, olvidar os que fizeram da pátria a peça trágica do presente, é dever patriótico silenciar a continuidade do embuste.

Sou português e sinto-me como tal. A golpada primaveril tratou-me mal, como a milhares de portugueses que se encontravam no Ultramar.

Bem merece o país o sofrimento actual, porque aplaudiram o desmembramento, e com ele o enxovalho a todos aqueles que regressavam dum pesadelo vivido, aqueles a quem apelidaram jocosamente de “retornados”, “devolvidos”, fugitivos e criminosos colonialistas.

Nós, os espoliados, jamais esqueceremos o ultraje com que muitos fomos tratados e injuriados, até àquela circunstância de ir buscar a simples mala de mão ou de porão na plataforma do aeroporto de Lisboa, lançada para debaixo do bojo do avião que nos retirara do inferno da “descolonização exemplar”, pelos democratas bagageiros da “Abrilada”.

Lembramo-nos ainda das ofensas por ocuparmos os hotéis à custa do dinheiro português, quando tal quantia tinha sido doada pelos países nórdicos, para que os hotéis não abrissem falência.

É sadismo, naturalmente, relembrar estas cruas e melindrosas situações, mas, por vezes, a vingança serve-se fria e muitíssimos portugueses merecem o nosso desdém, quando festejam a “Abrilada” trágica.

Aliás, os portugueses invejam os nossos emigrantes, como invejaram os ultramarinos, pelos sucessos que alcançaram, pois souberam lutar e vencer. A “Abrilada” para muitos “retornados” é símbolo da tragédia que viveram e sofreram, pois nem a indemnizações tiveram direito dos bens que deixaram no Ultramar, construídos com o esforço do trabalho de anos.

Cada vez se silencia mais o Processo Descolonização e substituem-no pelo conceito de liberdade alcançada com os respectivos genitivos da expressão, do pensamento e da opinião. Não podemos olvidar tais liberdades e, no seu âmbito, é-nos permitido criticar a gritante traição e o seu preço elevadíssimo pela forma como elas foram adquiridas.

Hoje estamos praticamente, na generalidade, solidários com a defesa do território da Ucrânia perante a agressão da infame Rússia. Mais de 800.000 jovens da minha geração souberam defender a integridade territorial de Portugal para que o processo libertador não se transformasse na vil traição de militares e civis de esquerda.

São os jovens defensores que merecem a heroicidade, mas que tão esquecidos têm sido, enquanto os tratantes da “Abrilada” os pretendem medalhar pelo mal causado ao país; tais como um Rosa Coutinho, um Vasco Gonçalves e outros semelhantes nos actos praticados.

Que uma excepção tenha lugar em relação ao marechal Spínola, pois bem tentou chegar a um processo de descolonização que não nos envergonhasse, procurando um período de vinte anos para o processo, o que o levou a uma primeira negociação nos Açores com o general Mobutu, do Zaire.

A “comunagem” infiltrada criou os maiores obstáculos e o marechal teve de fugir do país para criar uma força militar que se opusesse tenazmente aos desígnios malévolos de entregar o Ultramar à influência soviética. Não o conseguiu e hoje a sinistra trata-o como terrorista em vez de patriota ao serviço de Portugal.

Temo-los hoje ufanos pelo entreguismo criminoso, mas, a pouco e pouco, estão construindo os caixões onde hão-de perecer e ser enterrados com as posições assumidas relativamente ao apoio ao ditador Putin contra os patriotas ucranianos na guerra dos massacres naquele país da Europa.

Apenas uma questão de tempo para o seu funeral definitivo e para serem esquecidos nas valas comuns sob a terra que os hão-de cobrir. ■