A esquerda queria uma vítima e não um herói

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Um homem, num programa de televisão, questionado sobre a sua opção ou preferência sexual, assumiu-se homossexual. Fê-lo, não movido por um qualquer tacticismo ou por daí retirar particular benefício, tão só e apenas porque nada tinha a esconder. E a tudo respondeu, sem subterfúgios, sem reservas, enquadrando e explicando, porque, para si, era uma coisa natural. E a entrevista foi muito mais que isso. Foi sobre os valores da família, o respeito pelos pais, as dúvidas e inseguranças da adolescência, os percursos de vida, os amigos, as mágoas, os desalentos, as vitórias, as conformações…

Não foi uma entrevista a um político, medindo as palavras, sopesando votos, temendo confrontos, esquivando-se a temas menos queridos. Foi uma entrevista a um homem que se deu a conhecer de uma forma intimista, porventura muito mais intimista que qualquer um de nós. Não só, mas também, um exercício de pacificação. Não dele, mas nossa, que ainda convivemos mal com certos temas. Não se assumiu homossexual, porque não o escondia. Confessou-se, como nós nos confessamos de um determinado clube, partido ou religião. Fê-lo, porque achou que vivia em liberdade e nada havia de mal. Enganou-se!

As parangonas, nesse e nos dias que se seguiram, sublinhavam a sua opção sexual, como se isso fosse assunto. Como se fosse importante. Como se fosse o mais importante daquela entrevista…

A liberdade individual é coisa do passado. Hoje, aqueles que mais a apregoam são os que mais a querem controlar e substituí-la ou enquadrá-la em movimentos colectivos de pensamento desenhado por uns poucos – os diletantes das normas e das morais que devem ser aceites. É uma liberdade que só faz sentido se usada ou vivenciada a favor do grupo, segundo as regras estabelecidas para o gozo da liberdade, passe a contradição. Logo vieram a terreiro associações e uns quantos auto-proclamados defensores dos direitos “gay”, condenar, em praça pública, a vida privada de Rangel. Como a moeda, para eles, há a homossexualidade boa e má. A homossexualidade de direita e de esquerda, sendo que a primeira será repugnável. Uma opção sexual só é aceite, tolerada e deve gozar de protecção, se for acompanhada de uma militância de acções e valores que em muito transcendem a sua individualidade. Não ouvimos de Rangel qualquer lamento, remoque ou sequer uma alusão a um qualquer episódio em que se tenha sentido discriminado por ser homossexual. Fez o seu (vasto) percurso político, académico e profissional por mérito próprio e não por condição. E, para os proto defensores de alguns direitos, tal não é aceitável. Confundem o direito à liberdade sexual com os direitos “gay”, que apenas são uma construção ideária de conduta. Para Rangel a homossexualidade consiste apenas no direito de amar quem pretende, ainda que essa pessoa seja do mesmo sexo. Para os outros, implica luta, implica sangue, implica activismo. Se assim não for, então não és um bom homossexual. Se assim não for, não tenho sequer a certeza que possas ser homossexual. Foi este o registo de algumas vozes que enquistam a comunicação social, amplificadas nas redes e ecoadas nas gordas dos jornais.

Quando Graça Fonseca confessou a sua homossexualidade, fê-lo, não por qualquer imperativo moral, não por um desígnio de liberdade pessoal, mas como afirmação política. Fê-lo, escolhendo o “timing” e o meio, aquando da sua indigitação para Secretária de Estado. Fê-lo, como se essa opção fosse currículo e a legitimasse para o cargo que iria ocupar. Já Rangel – à semelhança de tantos outros – não usou a sua orientação sexual como cartão-de-visita. Ocupou os cargos e lugares por competência, por dedicação, por empenho e, sobretudo, por mérito. E isso a esquerda não lhe perdoa. A esquerda queria uma vítima e não um herói.

Do conjunto de vozes que se colocaram em bicos de pés, sobressai a de José Magalhães, pelo seu percurso, pelo cargo que ocupa e pelo tom. Só conheci dois tipos de bestas: as de carga e as mitológicas. José Magalhães carrega o peso do seu passado ideológico, que foi obrigado a trasvestir no pós degredo e isolamento parlamentar, recentrando-se no PS pela mão de Sampaio, que lhe aplacou o discurso enquanto Secretário de Estado. Liberto das arreias, a idade não lhe contemporiza o frémito revolucionário, soltando a língua e o cérebro, em excessos de escrita odiosa e soez.

O Parlamento, com o seu silêncio, normaliza o comportamento de um deputado. O PS, no seu mutismo, ratifica a postura. A comunicação social e os prosélitos de serviço esquecem a responsabilidade social, renegam a ética republicana e abstêm-se de condenações consagrando o princípio da irresponsabilidade dos titulares dos cargos públicos. No caso, não é irresponsabilidade, é inimputabilidade… 

É que, paradoxalmente, ainda que fosse verdade o que o deputado escreveu, mal nenhum haveria, porquanto, também aqui, estaríamos no campo da liberdade individual do sujeito. Mas ao que parece as vozes dos Magalhães deste mundo ressoam sobre tudo e todos, só emudecendo perante a pedofilia… ■