Diálogos Improváveis: Cabritoterapia

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Então, como é que se sente hoje?

– Mal, doutora. Muito mal. Muito triste. Agastado, mesmo!

– Então porquê?

– Ouviu o que é que o anão disse de mim?

– Não pode dizer anão. Temos que ser inclusivos. Agora diz-se pessoa pequena.

– Quero lá saber! Aquele pintor de rodapés cor de laranja, atreveu-se a dizer que eu era um abcesso político!!! Já viu?

– Não vi a entrevista. Mas não terá sido em sentido figurado?

– Figurado ou não, não se diz. Há que ter respeito pelas pessoas. Onde é que o mundo vai parar se não tivermos respeito e preocupação pelo próximo? Se entendermos fazer tudo o que nos dá na gana, só porque temos uma posição privilegiada? Nós, as pessoas públicas, temos responsabilidades sociais acrescidas, sabia?

– (…)

– E depois 78% dos portugueses querem que eu saia. Isso é que é notícia. Ninguém fala dos 22% que querem que eu fique… Disso ninguém fala, como se isso não fosse importante… 22% é mais ou menos a intenção de voto no PSD. E alguém chama abcesso político ao Rio? Ninguém…

– Sente-se injustiçado, portanto…

– Claro que sinto!

(percebendo uma lágrima que fugia, a doutora sugere):

– Quer passar para o divã? Talvez se sinta mais confortável.

– Acho que sim. Sempre me traz memórias mais agradáveis. O cheiro a pele. O banco reclinável… faz-me lembrar o meu BMW… Por falar em BMW. O parque do Conselho de Ministros… outra afronta!

– Como assim?

– É ver os bólides lá estacionados… O meu é dos mais fraquinhos… O João Pedro mandou quitar o Prius… Já dá mais de 200 e ele nem se apercebe! Um eléctrico todo turbinado… O Pedro Nuno tem um comboio…

– Um comboio?

– Sim! Disse ao pai que não se sentia confortável, já que a maior parte dos colegas vinha de transportes públicos e ele de Maserati. Achava que estava a ser discriminado face aos outros que já torciam o nariz. Vai daí, o pai vendeu-lhe o carro e comprou-lhe um comboio… A Marta tem uma charrete!

– Uma charrete???

– Sim. Estava a falar ao telefone com o António… Ele tem uma data de cartões de internet de Cuba e da Venezuela que o Sócrates deixou lá nas gavetas… Uma injustiça, tá a ver? Os milionários costumam deixar dinheiro, joias ou acções… Viu agora o Rei dos Frangos, não viu? Ele era notas em tudo o que é sítio… nas gavetas, em “dossiers”, em sacos… Bem que eu e o António revirámos o gabinete de pernas pró ar, a ver se descobríamos alguma coisa… Nada, nadinha, só cartões da internet da América do Sul e dois posters do Chavez autografados. O António estava piurso. Até comentou: Poça, nem o cofre da mãe o tipo deixou, aquele que convertia escudos em euros…Ricos amigos!!!

– Mas não estou a perceber o que é que isso tem que ver com a charrete…

– Já lá vou. O António estava a falar com a Marta, por causa da gestão da pandemia. Páginas tantas, disse-lhe: tens que falar com a jarreta. Ora, os cartões não são lá muito bons – de vez em quando a net vai abaixo, veja o que acontece em Cuba – e ela percebeu: tens que comprar uma charrete… vai daí…

– Percebo…

– Mas o que me deixa podre é a Mariana. Vai de uniforme e é vê-la sair toda altiva do autocarro do colégio… Que pinta!!! E eu ali, com o meu BMW todo amolgado…

– Mas já lhe devolveram a viatura? Pensava que estava apreendida!

– Esta é outra. É nova.

– E já está toda amolgada?

– Sim, atropelei cinco pareceres aquando dos festejos do Sporting…

(A médica faz um longo silêncio. O paciente respira fundo e retoma):

– E no final da semana, aquela cena em Reguengos com a GNR…

– Pois, isso eu vi. E porque é que não equipa a GNR com “tasers”?

– Com “teasers”? Ó doutora, para que é que serve um guarda excitado? Por favor…

– “Tasers”, senhor, “tasers”! (respira fundo). Ou então com gás pimenta?

– Pois, eu disso já me lembrei. Até encomendei ao gajo das golas. Mas em vez de gás pimenta ele fez gás caril… Não serve para grande coisa, mas o António diz que os bifes ficam cinco estrelas… Infelizmente, não dá para usar contra aquela comunidade de índole gregária de ancestrais nómadas e origem secular.

– Fico feliz por não utilizar expressões qualificativas que menorizem os sujeitos em função da sua origem ou de características pessoais, como fez com as pessoas pequenas. Fico muito contente por interiorizar essa preocupação social.

– Qual preocupação, qual quê, doutora! Cagufas, é o que é… A doutora nunca viu um anão armado, pois não? ■