Empresas com a corda na garganta

Aumentos de 300 e 400 por cento nos preços da electricidade e do gás para as empresas ameaçam paralisar sectores com uso intensivo de energia, como a cerâmica, o têxtil e a metalurgia.

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De mês para mês, os preços da energia têm vindo a acumular-se desde há cerca de um ano, por vezes com taxas mensais de aumento de mais de 20 por cento. Os consumidores serão penalizados pelos preços finais no mercado, mas antes disso muitas empresas entrarão em colapso e terão de fechar as suas portas.

Este ano, em parte devido à guerra na Ucrânia, o cenário de aumento de custos da energia agravou-se substancialmente e há empresas que estão já a pagar até quatro vezes mais pela eletricidade, por comparação com os preços do início de 2021. O aumento dos preços da electricidade e do gás junta-se, assim, ao aumento do custo dos combustíveis para transporte e à própria subida dos preços das matérias-primas.  

Ao contrário do que sucede no mercado energético para particulares, onde o Governo tem adoptado algumas medidas sociais de protecção, as empresas têm de suportar directa e integralmente os aumentos dos custos. A única forma de mitigá-los é provocarem uma subida nos preços de venda ao mercado, mas nem sempre isso é viável. E antes mesmo de lá chegarem, muitas empresas terão soçobrado por falta de tesouraria para manter a laboração.

A situação “preocupa toda a economia”, afirma o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), em declarações à CNN Portugal. De acordo com António Saraiva, todo o país vai sair afectado, mas o choque vai começar pelos grandes consumidores de energia, como a indústria.

120 euros por
megawatt/hora

Segundo Saraiva, nas indústrias cerâmica e têxtil praticamente todas as empresas tiveram aumentos de 380% a 400%. E exemplificou: “Tenho uma empresa que estava a ter um custo de gás natural de 100 mil euros por mês e passou para 400 mil euros por mês”.

Este agravamento afecta igualmente o sector da Metalurgia e Metalomecânica. De acordo com a Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), a factura da energia representa entre 7,5% a 20% dos custos mensais das empresas. Em Abril do ano passado, a AIMMAP promoveu a compra de energia em grupo, juntando também algumas empresas dos sectores da cerâmica e do têxtil, conseguindo um contrato de aquisição de energia a 55 euros o megawatt por hora. Agora, porém, “os 55 euros são virtualmente impossíveis”, segundo Rafael Campos Pereira, daquela Associação. “O cenário mais otimista aponta para contratos entre os 100 e os 120 euros por megawatt por hora”. “Como é que uma unidade empresarial consegue fazer face a este aumento de custos?”, questiona António Saraiva, da CIP.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados na última semana, o Índice de Preços na Produção Industrial (IPPI) apresentou, em Fevereiro, uma taxa de variação homóloga de 20,7% (17,8% em janeiro). Estes valores estão fortemente influenciados pela subida dos preços da energia (que sofreram um agravamento de 60,9% em Fevereiro) e das matérias-primas.

Esta evolução vai atingir duramente as indústrias que consomem muita energia, como é o caso da indústria dos moldes, indústria vidreira ou panificadora. Esta situação está a preocupar patrões e sindicatos do sector perante o risco de encerramentos de empresas, face ao aumento dos custos de produção.

“Colapso iminente”

A Associação Portuguesa da Indústria Cerâmica (APICER) alertou já para o “colapso iminente” do sector devido ao “aumento exponencial” dos custos da energia, que no ano passado registaram agravamentos de 300% na eletricidade e 400% no gás.

A APICER advertiu para “o perigo real de colapso estrutural do sector com muitas empresas actualmente paradas em virtude do custo da energia”. Este factor, acrescentou, “representa entre 30% a 40% dos custos de produção” das empresas do sector.

A isto soma-se o custo das licenças de emissão de carbono no mercado europeu, “cujo aumento também foi exponencial”, sublinha a Associação Portuguesa da Indústria Cerâmica. “As empresas do sector estão a ser fortemente penalizadas pelo aumento, sem precedentes, do preço dos combustíveis, designadamente do gás natural”, explicou o presidente da APICER, José Luís Sequeira.

“Se tivermos em conta que a indústria cerâmica é dos maiores consumidores de gás natural no contexto da indústria transformadora, podemos entender as enormes dificuldades com que actualmente as empresas se deparam e que terão inevitáveis consequências na sua atividade”, alertou Sequeira.

A indústria cerâmica conta com um universo de 1.200 empresas e quase 1,85 mil milhões de euros de facturação. É responsável por 18.500 trabalhadores, “sendo um sector fortemente exportador com presença internacional em 160 mercados”.

Proposta ibérica
aguarda

À hora de fecho desta edição a Comissão Europeia continuava a aguardar “informações pendentes” para poder aprovar em definitivo o mecanismo temporário proposto conjuntamente por Portugal e Espanha para fixar o preço médio do gás na Península Ibérica nos 50 euros por MWh.

O esclarecimento foi feito pela Comissão em Bruxelas, horas depois de o primeiro-ministro António Costa ter anunciado em Lisboa que estava já aprovada a proposta ibérica para tectos no preço do gás. Afinal, não estava: segundo fonte oficial da Comissão indicou em resposta escrita enviada à agência Lusa, “certas informações permanecem pendentes e é esperada uma notificação formal para breve”.

E Bruxelas contextualiza: “Os serviços da Comissão receberam recentemente um projeto de medida técnica contendo um grande número de pormenores relevantes subjacentes ao acordo político [alcançado com Portugal e Espanha] e partilharam a sua avaliação preliminar”. E, “embora não tenham sido tomadas decisões formais nesta fase, a Comissão manteve-se em estreito contacto com as autoridades espanholas e portuguesas sobre a concepção da medida”. Isto é: a Comissão recebeu a proposta, considerou-a válida em termos genéricos, mas falta agora acordo nos detalhes técnicos, para além da aprovação, em Espanha e em Portugal, da legislação pertinente. Só então se poderá anunciar que está aprovada a proposta ibérica. Não antes. Mais uma vez, o optimismo de Costa revela-se francamente exagerado face à realidade. ■