Diálogo de Gustavo de Fraga com Ortega y Gasset (II)

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Nessas passagens, há uma evidente concordância de princípio, em particular no que diz respeito ao fenómeno da “desenvolvimento de uma sociedade de massas”, tão característico do nosso tempo, que tem conduzido “a uma mecanização, automatização e funcionalização da vida em geral” (p. 121) – a título de exemplo, atentemos ainda nas seguintes: “Este homem de massa tem um instinto, (…), que o inclina imediatamente a adoptar a atitude da multidão, e pelo qual se indiferencia, quer na moda, quer nas ideias” (p. 51); “Entre o sábio e o ignorante, o especialista é uma nova categoria de homem. Não é sábio porque só sabe da especialidade, não é ignorante porque é homem de ciência. Será ignorante em arte, em política, nas outras ciências, que não na sua, nos usos sociais, comportando-se como homem-massa em inúmeras esferas da vida” (p. 73).

Não obstante essa evidente concordância de princípio, há porém algumas passagens em que Gustavo de Fraga não deixa de assinalar algumas distâncias relativamente a Ortega y Gasset, sobretudo a respeito do seu alegado “aristocratismo”, considerando inclusivamente que mesmo o seu liberalismo é “terrivelmente aristocrático” (p. 44) e que cabia à própria Universidade – como sua “missão”, conforme expressamente refere – “fazer do homem médio um homem culto, possuindo uma imagem física do mundo, conhecendo o processo histórico da humanidade, e tendo uma noção dos temas fundamentais da vida orgânica, bem como a ideia da sociologia. Além disso, o homem médio que a Universidade cria terá na filosofia um plano do universo” (p. 42).

Neste ponto, está Gustavo de Fraga bem mais próximo de um outro filósofo português, Amorim de Carvalho, que, também em réplica a Ortega y Gasset, escreveu o seguinte: “a dualidade massa-elite, em cada homem, tornou possível uma progressiva culturalização, isto é, elitização das massas. O que me obriga a não aceitar a tese de Ortega y Gasset, é que ele considera a distinção entre o homem-massa e o homem-elite como sendo dois casos completamente diferentes e separados: a maioria dos homens é massa e somente massa; a minoria é elite e somente elite, – o que nos impede de claramente explicar o fenómeno da comunicação entre a maioria e a minoria, e os movimentos sociais em que as duas forças do homem concreto, real, se indeterminam, uma delas funcionando como a subdeterminação e a outra como a superdeterminação” (in O fim histórico de Portugal, Lisboa, Ed. Nova Arrancada, Lisboa, 2000, p. 21). ■

VIII Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade- Caso pretenda participar neste duplo evento, pode enviar-nos uma proposta de comunicação (com título, resumo e breve cv), até final de Maio – podendo igualmente indicar o dia/ local em que pretende participar.