Europa, U.S.A. e China

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Vou começar por alguns números que me parecem importantes e interessantes. No ano 2000 a Europa representava 24%, os Estados Unidos 20% e a China 7% da riqueza mundial. Passados apenas 20 anos, estes números são bastante diferentes, pois a Europa caiu para 18%, os Estados Unidos para 14%, e a China triplicou a sua riqueza, passando para 19% da riqueza mundial.

Assustador!

E agora, falando do Covid 19, mais alguns números igualmente interessantes e reveladores. Por cada milhão de habitantes, a China teve 3 mortos, a Europa 1.300 e os Estados Unidos 1.600. Estes são valores absolutos válidos em Março de 2021.

Temos aqui um bom quadro da China.

A China está perto de celebrar os seus 100 anos de comunismo, o que fará em 2049, pois foi em 1949 que Mao Tsé Tung tomou o poder forçando os nacionalistas de Chang Cai Check para a Ilha Formosa (que mais não é do que um gigante porta-aviões americano em pleno Pacifico, desempenhando um papel idêntico ao de Israel no Médio Oriente). Lembremo-nos de que a China, em 1949 e nos anos que se lhe seguiram, foi um dos países mais pobres do mundo. Quem leu esse formidável livro “Os Cisnes Selvagens”, escrito em discurso directo por uma chinesa de 3ª geração a viver em Londres, fará uma boa imagem dessa China nos idos de anos 50, 60 e 70.

Mas depois veio aquele mini-super-homem, Deng Xiao Ping, que virou o jogo. Para ele tanto fazia a cor do gato, desde que apanhasse o rato. E aí foram lançadas as bases. Um país com dois sistemas: partido único com economia de mercado. 

Chegados ao ano 2.000, o GATT deu lugar à OMC, que abriu de uma vez por todas as comportas da China ao mundo. E passados 20 anos, aqui temos a China a poucos passos de se tornar a maior economia do mundo, com uma população e economia superior à dos Estados Unidos e Europa juntos. 

Por este caminho os Estados Unidos serão relegados a uma mera potência regional enquanto a China retomará o seu lugar de “império do meio”, lugar esse que lhe foi roubado pelo Ocidente com o advento da revolução industrial e científica dos séculos XVIII e XIX.

Vejam na Netflix o documentário “Uma fábrica americana” para se darem conta de que neste momento já temos empresas chinesas a comprar empresas americanas, impondo ordenados de 15 dólares/hora, quando há meia dúzia de anos essa mão-de-obra americana ganhava 28 dólares/hora.

Este braço de ferro vai começar a doer, se na proposta “Cimeira Mundial da Democracia”, anunciada por Joe Biden, Taiwan for convidada.

Os Estados Unidos foram donos incontestados do século XX, propondo e impondo ao mundo o seu “american way of life”; não me parece provável que a China queira fazer o mesmo, mas não me espantaria que daqui a meia-dúzia de anos venhamos a ter patrões chineses. Entre nós e a China existe um fosso cultural que nem as novas tecnologias vão por enquanto conseguir vencer. 

No Ocidente vinga o homem, no Oriente vinga a comunidade, mas nós sabemos que a união faz a força e por isso mesmo parece-me urgente chegar a um entendimento com o prolongamento cristão da Europa, que é a Rússia, juntando os dois pulmões da Europa, conforme afirmava o saudoso S. João Paulo II, aquando da queda do muro de Berlim em 1989. 

Ficaria assim criado um mercado de 1.300 milhões capaz de fazer frente à China, pois não quero pensar no futuro da Europa se a Rússia se juntar antes à China. Temos de perceber que a Rússia é uma coisa e o comunismo é outra. Os 60 anos de comunismo soviético criaram uma espécie de imunidade de grupo contra esta “filosofia de morte”, que teima em persistir nalguns cantos do planeta.

A Rússia dos czares estava madura para a revolução bolchevique, mas hoje a Rússia do século XXI está madura para a Europa. 

Há que vencer as compreensíveis reticências e receios dos países limítrofes, pois esta é apenas e simplesmente uma questão de sobrevivência para a nossa Europa. ■