Em Janeiro de 1968 (completam-se neste mês 49 anos), o dirigente reformista Alexander Dubček tornava-se líder do Partido Comunista da Checoslováquia e iniciava um processo de transformação do regime, visando a democratização da vida política e a liberalização controlada da economia. Poucos meses depois, em Agosto, a União Soviética punha termo à “experiência”, que ficou conhecida como “Primavera de Praga” e concitou enorme apoio popular. À distância de meio século, O DIABO recorda a grande lição checa publicando um trecho do “Livro Negro do Comunismo” sobre a tentativa de Dubček esmagada pelos tanques comunistas soviéticos.    

A repressão que se seguiu à expansão dos regimes comunistas na Europa, e que sem dúvida pode ser classificada como “terror de massa”, assentava na violação e na liquidação das liberdades e dos direitos fundamentais. Essa repressão estava em total contradição com o texto oficial das Constituições dos países do “bloco de Leste” e, frequentemente, violava também as leis em vigor: nenhuma lei permitia o emprego da tortura em larga escala, nenhuma lei dava plenos poderes à polícia política.

A ditadura comunista não foi específica de um Estado – embora esse Estado, a União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS), cobrisse a sexta parte da área total do globo – mas de vários Estados, internacionalizando-se. As ditaduras comunistas representavam um sistema de vasos comunicantes entre si, tendo Moscovo como o seu centro. Sabemos, graças à abertura dos arquivos, que a repressão nas futuras “democracias populares” foi inspirada e dirigida, logo após 1944, pelo poderoso aparelho comunista internacional, estruturado em redor da Internacional Comunista, posteriormente integrada pelo aparelho central soviético.

A ampliação da experiência bolchevique aos Estados não integrados na União Soviética depressa se revelou arriscada: as sensibilidades nacionais continuavam a existir – e a exprimir-se -, apesar das intervenções de Moscovo destinadas a uniformizar os regimes do bloco soviético. O período fundador dos regimes comunistas deixara muitas feridas abertas. O terror de massas foi então usado como método de repressão – e parece legítimo incluir nesta categoria as intervenções militares do exército soviético. Os tanques na rua destinaram-se a semear o terror entre a população.

Os tanques soviéticos actuaram pela primeira vez em 17 de Junho de 1953 na República “Democrática” Alemã (RDA): a sua utilização destinava-se a esmagar – em Berlim Leste e em outras grandes cidades – manifestações espontâneas de trabalhadores provocadas por medidas governamentais que endureciam as condições de trabalho. Depois do XX Congresso do PCUS, os dirigentes soviéticos recorreram ainda por duas vezes a intervenções militares de grande envergadura: na Hungria, em 1956, e na Checoslováquia, em 1968. Os tanques serviram, em ambos os casos, para esmagar uma revolta anti-totalitária popular que conquistara a adesão de importantes camadas da população.

Na Hungria, país onde o exército soviético tinha forças estacionadas, os combates provocaram cerca de 3.000 mortos, dois terços dos quais em Budapeste, e 15.000 feridos. A repressão que se seguiu ao esmagamento da revolta húngara, e na qual a polícia militar soviética participou activamente até início de 1957, atingiu mais de cem mil pessoas, várias dezenas de milhares foram encarceradas em campos de concentração, 35.000 foram levadas a tribunal, das quais entre 25.000 e 26.000 foram presas. Vários milhares de húngaros foram deportados para a União Soviética; 229 rebeldes foram condenados à morte e executados; finalmente, 200.000 pessoas evitaram a repressão e emigraram.

Na Checoslováquia, 12 anos depois da insurreição húngara, os tanques soviéticos semeavam de novo o terror. A intervenção militar de 1968 deve distinguir-se da de 1956, ainda que tivesse o mesmo objectivo – o esmagamento de uma revolta popular contra o “socialismo à soviética”. São diferentes pelo tempo que passou, pela conjuntura internacional e pela conjuntura específica do sistema comunista mundial. O grosso das tropas de assalto era evidentemente soviético, mas quatro outros membros do Pacto de Varsóvia participaram: Bulgária, Hungria, Polónia e República “Democrática” Alemã. Ressaltemos um outro fato fundamental: o exército soviético não possuía unidades estacionadas na Checoslováquia, como aconteceu na Hungria de 1956. O Estado-Maior soviético devia encarar a eventualidade de uma resistência armada dos checos à invasão, com a possibilidade de uma guerra local ou mesmo europeia.

Compreendem-se assim os impressionantes meios mobilizados. Na noite de 20 para 21 de Agosto de 1968, com o nome de código “Danúbio”, a operação preparada desde 8 de Abril, quando foi assinada a directiva GOU/1/87654 do marechal Gretchko, ministro da Defesa soviético, pôs em acção principalmente tropas soviéticas estacionadas nos territórios da RDA, da Polónia e da Hungria. Em primeiro lugar as unidades blindadas, os preciosos tanques que por todo lugar simbolizaram a repressão, inclusive na praça de Tian’anmen, em Pequim, em 1989. O primeiro escalão era composto por 165.000 homens e 4.600 tanques; cinco dias mais tarde, a Checoslováquia encontrava-se ocupada por 27 divisões apoiadas por 6.300 tanques, 800 aviões, 2.000 canhões e cerca de 400.000 homens.

Para termos mais claramente a medida do poder de ataque desses tanques, monstros mensageiros do terror, lembremos que em 1940 a França foi atacada por cerca de 2.500 tanques – nitidamente menos pesados em massa de aço e esteira e com menor poderio de fogo do que os de 1968 -, e que a Alemanha de Hitler mobilizou, em Junho de 1941, 3.580 tanques durante o ataque à URSS. E, finalmente, que a Checoslováquia tinha aproximadamente 14,3 milhões de habitantes, muito menos de metade da população francesa em 1940.

Não houve guerra local, e a resistência à invasão foi pacífica, não houve conflito armado, o que não impediu que os invasores tivessem matado 90 pessoas, sobretudo em Praga. Mais de 300 checos e eslovacos ficaram gravemente feridos, e mais de 500 sofreram ferimentos leves. As autoridades soviéticas prenderam e deportaram vários dirigentes, sendo no entanto obrigadas a libertá-los poucos dias depois e a negociar com eles.

A repressão ligada a essa intervenção militar não terminou em 1968: entre as suas vítimas figuram as “tochas humanas”, os que publicamente se imolaram pelo fogo como protesto contra a ocupação. Conquistaram na época, e até hoje, o estatuto de vítimas simbólicas. O primeiro a escolher esse destino foi Jan Palach, estudante de 20 anos, imolado pelo fogo no centro de Praga em 16 de Janeiro de 1969.

Entretanto, o terror de massa, aprovado por Moscovo, continuava a exercer-se de maneira insidiosa e cruel, numa estratégia subtil destinada a instaurar o medo: centenas de milhares de pessoas viram cerceado o seu direito de participação na vida pública, sofrendo também discriminação profissional; os seus filhos, impedidos de acesso ao ensino secundário ou superior, tornaram-se reféns. Desde o início da “normalização”, o regime atacou os órgãos da sociedade civil que se haviam reorganizado em 1968: cerca de 70 organizações e associações foram proibidas ou liquidadas, a censura reinstalou-se, etc. Dezenas de milhares de checos e eslovacos seguiram finalmente os passos dos exilados de 1948. Durante os 40 anos de regime comunista, cerca de 400.000 pessoas, na sua maioria qualificadas e com estudos superiores, escolheram abandonar o país.

Quando se libertou do comunismo, a Checoslováquia detinha o triste recorde da perseguição política na Europa.

  • BAAL

    Nunca vi a direita tão preocupada com os direitos humanos nos regimes de Pinochet, Videla, Franco, Salazar, Papa doc, Marcos, etc.

    • Ultramar

      “Vocês” estão preocupados com os desmandos provocados
      pelo multimilionário Fidel Castro e pelo bronco Maduro.
      Querem é $$$$$$$$$$$$ á custa do povo, BAAL, malabarista
      e bronco como nunca se viu! Mãe comunista, funceminária do
      público, o que isto queira dizer… pai empregado no PCP, um
      canalha vendido para explorar o povo, que geram um rabenta,
      o BAAL. Nem um nem o outro sabem da “progenitas”
      Geraram um bronco, melhor um super bronco, enrolado na
      porcaria que escrevinha, sem cultura, sem história, sem nada
      que justifique tal bronca!
      “Vocês e a merd@ que pensam que geraram!

      • BAAL

        Eu defendo o modelo europeu, não sei o que tem isso a ver com o Fidel.

        E você, ao estar constantemente a insultar os meus pais, está a insultar pessoas de direita.

        Você é o perfeito exemplo dos broncos que enchem os movimentos de direita.

        Insisto em que o diabo o devia contratar como colunista, para as pessoas verem bem do que a direita é feita.

      • Alibaba de Massamá

        Mas o Coelho do pote e’ melhor que o Fidel !!

        https://www.youtube.com/watch?v=yrsSlofyt3I