Líder do PAN debaixo de fogo

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À hora de fecho desta edição continuava a aguardar-se a demissão, ou pelo menos a retractação pública, da líder do partido Pessoas, Animais, Natureza (PAN), Inês Sousa Real, acusada na praça pública de ter sido sócia de uma estufa de frutos vermelhos muito pouco amiga do ambiente, de ter fornecido dados erróneos sobre a sua ligação a sociedades de exploração agrícola e de ter patrocinado na Assembleia da República uma lei que favorecia os seus negócios particulares.

Como referimos na nossa última edição, o “folhetim Sousa Real” teve início quando a comunicação social revelou que a líder do PAN, apesar de publicamente defender uma agricultura sustentável e amiga do ambiente, afinal tinha uma ligação pessoal e profissional a uma exploração agrícola na região do Montijo onde se usavam métodos intensivos condenados pelos ambientalistas, nomeadamente estufas de alto rendimento. 

Sousa Real tentou, em resposta, convencer a opinião pública de que não se trataria de estufas, mas sim de “túneis compatíveis com o aumento da biodiversidade”. Mas Luís Mira, da Confederação dos Agricultores, desmentiu tal distinção, esclarecendo que os supostos “túneis” não passam de vulgares estufas. “Com que moral é que se aponta o dedo quando se pratica este tipo de situação?”, perguntou Mira. “Se tiver o mínimo de vergonha, demite-se”. 

A ligação de Inês Real a duas empresas de produção de frutos vermelhos ficou igualmente em xeque. De uma delas só se desvinculou em 2019 (e não em 2013, como declarara), enquanto que a sua quota na outra foi “vendida” à sogra, que no mesmo dia a passou para o nome do marido da líder do PAN.

Como se tudo isto não bastasse, soube-se na última semana que Inês Sousa Real foi co-autora de um Projeto de Resolução parlamentar propondo um ‘pacote’ de incentivos financeiros à agricultura biológica – exatamente o tipo de exploração das empresas agrícolas a que, direta e indiretamente, está ligada. 

Com efeito, a líder do PAN, que detém participações maioritárias em duas empresas do sector (na Berry Dream por via conjugal e na Red Fields individualmente e através do casamento), é uma das três subscritoras do Projeto de Resolução n.º 1353/XIV/2.ª, que recomenda ao Governo “o apoio à produção e promoção de produtos com origem na Agricultura Biológica”.

A iniciativa legislativa, que deu entrada no Parlamento a 18 de Junho e baixou à Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar (que a porta-voz do PAN integra) três dias depois, aponta para 9 medidas concretas, nomeadamente “reabrir medidas de apoio financeiro à conversão para Agricultura Biológica, garantindo que os apoios se destinam exclusivamente a este tipo de agricultura”, “alocar recursos financeiros à execução plena da Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica” e “dotar financeiramente a assistência técnica apoiada aos novos agricultores”.

Embora a sua participação na elaboração do Projeto de Resolução seja inteiramente legal, o certo é que a iniciativa pode beneficiar a empresa do marido (que é também sua, pelo regime de comunhão de adquiridos). Ouvida pelo ‘Polígrafo’, Sousa Real afirmou que o apoio financeiro previsto “beneficiaria por igual todos os produtores do modo biológico, mas acima de tudo os consumidores, pois ao mesmo tempo que se promoveria boas práticas ambientais, também estar-se-ia a promover uma alimentação mais saudável. A adoção por parte do Governo desta recomendação do PAN beneficiaria também, e de forma igual, todos os agricultores em modo biológico”.

Inês Sousa Real afirmou-se ainda “de consciência tranquila”, mas confessou que “se fosse hoje não assinaria a proposta, por perceber agora que facilmente se deturpam factos”. ■