Mota Soares: contra a paralisia do “poucochinho socialista”

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“Não há página de austeridade que se vire quando os serviços públicos entram em colapso só para fazer brilharetes orçamentais” – frisa Pedro Mota Soares em declarações a O DIABO. Muito crítico da actual solução da geringonça, considera que “num mundo cada vez mais global, veloz e competitivo, espera-se ambição, espírito e acção reformista”. Por isso lamenta que nestes quatro anos não se tenha conseguido “quebrar o imobilismo da actual solução governativa”. Parlamentar ao longo de dez anos e ministro numa legislatura, Pedro Mota Soares foi número 2 da lista do CDS-PP às europeias, mas o baixo resultado nas urnas fez com que não fosse eleito para Bruxelas.
Deixa agora o Parlamento, apesar de continuar muito envolvido com a política no CDS-PP.

Fez recentemente a despedida da Assembleia da República, recordando que nos últimos 15 anos de actividade política foi deputado durante uma década e ministro numa legislatura. Como parlamentar, o que lhe deu mais gozo fazer?

Não obstante as várias vezes que estive no Parlamento no tempo em que desempenhei as funções de Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, os tempos em que aí estive foram como deputado na oposição ao Governo de José Sócrates e agora ao Governo de António Costa. Não obstante este facto, mesmo estando na oposição, orgulho-me de ter conseguido alcançar muito no Parlamento. Na área social, na área do apoio aos mais carenciados e aos excluídos.

O que sente que não foi possível concretizar?
Quebrar o imobilismo da actual solução governativa. Num mundo cada vez mais global, veloz e competitivo, espera-se ambição, espírito e acção reformista. O trabalho feito pelo Governo revelou imobilismo, conformismo, paralisia reformadora – o “poucochinho socialista”. E mesmo a ‘performance’ orçamental assenta num plano de fraca qualidade estrutural, no agravamento da carga fiscal, a mais alta dos últimos 22 anos, e numa opção deliberada pela consolidação à custa da qualidade dos serviços públicos.

Não serei eu a pôr em causa a necessidade de consolidação das contas públicas. Perante as dificuldades e os bloqueios que Portugal ainda enfrenta – a terceira maior dívida da União Europeia, o segundo maior défice, a produtividade em queda -, a consolidação das finanças públicas afigura-se como condição absolutamente indispensável para corrigir os desequilíbrios acumulados e para instalar a confiança que permite um crescimento sólido, sustentado e durável.

Contesta então o tipo de consolidação que está a ser feito pelo Executivo de António Costa?
O que está em causa é a forma como essa consolidação está a ser feita. Não podemos ignorar que a opção orçamental do governo foi a de fazer arrecadar o máximo possível de impostos – veja-se o caso do imposto sobre os combustíveis, em que em cada 10 euros de gasolina 6,20 euros vão directos para os cofres do Estado – e recair a totalidade dos cortes na despesa nos serviços públicos, partindo de um princípio profundamente penalizador, mas nunca declarado, de que é preferível trocar satisfação dos utentes pela dos funcionários. Não tem de ser assim.

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