O orçamento da estupidez

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O Orçamento tem muitas contas. Para lá daquelas que afectam directamente os portugueses, as de somar e subtrair na receita e na despesa, há toda uma geometria variável de entendimentos parlamentares que são o garante da aprovação do mesmo. Num período em que o PS fez refém a esquerda (por opção desta, entenda-se!) e inoperante ou irrelevante a direita (também por culpa própria, sublinhe-se!), as moções de censura ou a aprovação dos programas de Governo tornaram-se letra morta. Existem, na Constituição, mas, na prática, são quase como peças de museu. Há muito que se deixou de fazer a política do combate, de ideias, de programas, de visões estratégicas, de responsabilidades. Hoje o caminho é feito de compromissos, de cedências, de mercantilismo e de populismo bacoco. A garantir a sobrevivência de alguns, em prejuízo de todos. E, nesse sentido, a negociação orçamental, representa apenas uma moeda de troca, num canibalismo de lugares, de somas nunca certas. O que se pagam e negoceiam são os silêncios da esquerda nos casos Cabritas, nas TAPs, na inoperância da Justiça, no caos da Educação ou na anunciada morte do SNS. 

Inocência à parte – até porque ela não me assiste – o que deveria suceder era a apresentação de um Orçamento que respaldasse as prioridades do Governo para aquele ano e que dissesse, de forma clara e inequívoca, é aqui que nós pretendemos gastar o dinheiro dos portugueses – sim, o dinheiro dos portugueses, porque o Estado nada produz! – o que é que vocês acham? E os partidos darem as suas contribuições no sentido de onde e como se deveria aplicar esse dinheiro. O que sucede é exactamente o contrário: o Governo não é claro por três motivos. Primeiro, por manifesta incompetência. Segundo, porque carece de um plano estratégico para a legislatura, navegando, ano a ano, em função dos apoios parlamentares. Terceiro, porque a despesa é manifestamente superior à receita e o Estado não tem coragem para combater este fenómeno, preferindo um endividamento sucessivo. Com o compadrio de uma esquerda irresponsável que vive dos “soundbytes” do momento, desde logo porque sabe que jamais governará. Ou seja, o problema nunca será seu, nem ela alguma vez será parte da solução! Paralelamente, o engodo e a quimera são da sua natureza intrínseca. Não os poderia sequer combater, sob pena de extinção. A direita, hoje um pouco à deriva, é certo, encontra-se amordaçada. Ainda que tivesse plano, estratégia e solução, jamais teria palco, jamais teria voz!

Neste palco negocial a quem interessa (ou não!) que seja aprovado o Orçamento, qualquer que ele seja? Interessa a todos, inclusive ao PS, menos a Costa. Confuso? Explique-se:

Interessa, desde logo, a Marcelo, que já o manifestou por diversas vezes. Não porque o Orçamento seja bom, represente políticas correctas ou um alívio fiscal para os contribuintes. Apenas porque Marcelo é avesso aos confrontos (de qualquer tipo!) e se pretende perpetuar mediocremente como “um gajo porreiro”. Ora, “os gajos porreiros” não levantam ondas, não criam conflitos, não tomam decisões. São uma espécie de seres inócuos e quem não gosta do tipo de pessoas que tanto come peixe como carne, tanto vai à praia como fica em casa, tanto alinha numa novela como num filme de terror?

Depois, à esquerda no seu conjunto. Ao Bloco que ainda pensa poder repetir o golpe de teatro do orçamento passado, mesmo que tal número não tenha surtido qualquer efeito. Aos comunistas cujo móbil é sempre a derrota da direita, independentemente do seu custo! Um e outro jogarão o jogo do gato e do rato, prometendo chumbos, mas assegurando a sacrossanta abstenção que levará à sua aprovação. Uma vez mais, falhos de ideias e de estratégia, prolongando o logro até ao limite do aceitável. Ao PAN, que continua convencido que se cães e gatos votassem governaria com maioria absoluta. Desconhecendo o que é um orçamento e para que serve, enjeita o apoio se este não tiver ração “deluxe” em tamanho XXL. Negará o pai, se tal se mostrar necessário, ainda que lhe seja ofertada alpista para canários.

À direita, porque anda entretida em guerras internas e jamais conseguiria capitalizar uma crise. Seja porque a manutenção dos actuais líderes não são garante de qualquer vitória, seja porque os sucessores não terão programa nem estratégia consolidada e os eleitores sabem disso. Jamais lhes confiariam a governação (ia escrever governabilidade mas depois comecei a rir-me!). A IL terá ainda que definir a sua estratégia de comunicação para que os eleitores percebam que esta coisa de ser liberal não é crime, nem tique de ricos e que pode ter aplicabilidade prática. Ventura, o homem que mais poderia capitalizar com a antecipação de eleições, resolveu entrar num duelo com o espelho e dar um tiro no pé. Num cenário de eleições internas no maior partido à direita e seu aliado natural, achou por bem destratar – num ataque pessoal ao seu estilo – o provável vencedor do confronto. O principio do “há que queimar pontes ainda antes destas estarem erigidas”, para além de estúpido, representa uma tentativa de suicídio. O que lhe vale é que, à semelhança de todas as suas tentativas anteriores, também esta não foi bem sucedida, pelo que a reversão será possível, ainda que custosa!

Interessa também ao PS porque é acéfalo e, enquanto o líder não lhe diga o contrário, a ausência de pensamento crítico dita o conformismo e a presunção. Salvar-se-á, porém, porque para além de já se ter demonstrado desprovido de espinha dorsal – o que lhe permite contorcionismos que o esqueleto jamais conseguiria suportar – a presunção é ilidível. O grande líder dir-lhes-á quando mudar de opinião e a carneirada obedecerá cegamente!

Costa interpreta bem o papel. Sabe que o orçamento é mau, mas tem plena consciência que está muito mais em jogo. Pretende a sua legitimação interna e externa. Interna, porque beliscado pelos resultados autárquicos, afasta a ala mais extremista do seu partido. Ganha ainda pretexto para remodelação ministerial que pretende fazer, sem dar parte de fraco e sem ceder a pressões, aproveitando para colocar Medina novamente próximo de si. Externa, porque fica com um trunfo perante a esquerda que o deixou cair. Não ganhará com a maioria absoluta que anseia (mas sabe não ser possível), mas também não precisará. Uma vitória, por poucochinho que seja, deixa a esquerda refém da sua estratégia e sem qualquer poder negocial. Para Costa não haverá melhor altura para ir a votos do que esta!

E achavam vocês que eu ia falar de impostos? Peçam-me um orçamento primeiro…. Não parecem, mas são grátis! ■